quinta-feira, 15 de outubro de 2009

O fim da infância

Davi era uma criança linda. Recebia mimos de todas as partes, todos queriam apertar suas bochechas gordinhas, falar palavras com vozes esquisitas ou fazer brincadeiras estranhas. Valia tudo para fazê-lo sorrir. Seu sorriso era tão valioso que muitos disputavam um momento ao seu lado. O mundo todo servia Davi, ele recebia toda atenção que queria, sem fazer qualquer esforço. E se alguém ousasse ignorá-lo, bastava um choro ou uma cara triste para este se arrepender amargamente do ato insano.
Davi era uma criança feliz adorava o carinho que recebia. No seu aniversário o dia era todo dele. Na Páscoa tinha acesso a todos os doces possíveis. No Natal ganhava surpresas e a atenção de toda família. Mas ele gostava mesmo era do Dia das Crianças. Era sua data preferida. Era nela que recebia os presentes mais legais, afinal, ele era premiado por ser criança. Um prêmio por algo que ele adorava ser.
Porém os anos foram passando e Davizinho foi sentido algumas mudanças estranhas no seu corpo. Sua voz estava estranha. Às vezes ela engrossava, as vezes ela afinava. Seu rosto começava a se encher de espinhas, era horrível ter que encarar o espelho. O pior de tudo é que as malditas se reproduziam na velocidade de um coelho. Suas roupas foram ficando curtas, isso fazia com que o dinheiro, antes investido somente em brinquedos e doces, fosse destinado a necessidades mais básicas. Seu andar estava desengonçado. Era terrível.
Certa noite ele parou para pensar "estou virando um monstro". Apavorado, demorou para pegar no sono. Teve estranhos sonhos com a vizinha. Isso foi estranho para ele. Ela era uma garota e garotas deveriam ser ignoradas, era isso que pensava. Mas não conseguia parar de pensar nela.
Aos poucos os mimos foram ficando mais raros... As pessoas que antes o rodeavam e queriam o seu sorriso, agora o enchiam de críticas e conselhos. Aquilo foi demais para ele. Se antigamente era fácil chamar a atenção, atualmente era quase impossível. Isso exigia atitudes radicais, impensadas, ridículas e que, normalmente, só geravam mais críticas e conselhos. Davi estava desesperado. Queria uma explicação que ninguém era capaz de dar. Mas ainda havia o dia 12 de outubro. Sim, aquilo seria sua salvação. Estaria livre dos seus temores, pelo menos por um dia.
No dia 11 ele quase não dormiu. Estava ansioso demais para isso. Mesmo assim seus pensamentos novamente insistiam em lembrar da vizinha e da professora de Português. "Que saco..." pensou ele, aquela expressão se tornou sua fiel companheira neste momento difícil.
Mal o relógio despertou e Davi pulou da cama. Era um belo Domingo de sol. A família iria se reunir. Ele tinha certeza que receberia um agrado, um presente que lembraria seu valor. Não tinha como dar errado. Recebeu todos os convidados com um sorriso, tentou ser simpático, até resistiu a cara feia quando uma tia disse que ele estava muito magrinho.
O tempo passava. Davi começava a ficar impaciente. Queria atenção, mas todos o ignoravam. O sorriso desaparecera. Desistiu da simpatia e aderiu ao mau humor. Respondeu rispidamente a uma pergunta da sua mãe. Isso fez com que seu tio, o mais legal, viesse perguntar:
- Aconteceu alguma coisa Davizinho?
A esperança voltou. Alguém tinha reparado que lhe faltava algo. Era uma ótima oportunidade. Então arriscou e perguntou:
- Nada, só to meio ansioso pelo meu presente.
O tio riu. Deu um leve tapa nas costas de Davi e já se levantando falou.
- Se liga guri, tu não é mais criança.
Não foi um tapinha nas costas, foi um forte soco no estômago. Davi desabou, descobriu a verdade. A infância tinha terminado e de maneira trágica. Desde então, concluiu que o Dia da Criança além de celebrar a infância também determina quando ela chega ao fim.

Ta tocando no iPod: Someday - The Strokes

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