quinta-feira, 19 de novembro de 2009

Olhares

El a estava em pé no ônibus. Distraída, pensando em besteiras cotidianas. O ônibus estava meio cheio, ou seja, ninguém estava apertado, mas nem todos estavam sentados. Cansada de pensar, resolveu fazer uma rápida viagem de 180º com seus olhos, procurando algo interessante para observar. E encontrou.

Ele estava sentado. Tinha os cabelos bagunçados, uma mochila surrada, roupas de marcas de surf e um olhar compenetrado. Ele estava olhando para ela. Admirando-a. De uma maneira nem um pouco discreta. Aliás, até um pouco ousada, já que invariavelmente ele a analisava da cabeça aos pés, dando uma grande pausa no meio.

Logo ela penso: "Tarado, que falta de respeito". No entanto, ela resolveu arrumar o cabelo, morder rapidamento os lábios, ajustar as calças e fazer uma cara mais séria. Seu pensamento dizia uma coisa que seus gestos contrariavam.

Veio então o desejo de olhar novamente para ele. Aquele garoto de cabelos bagunçados, mochila surrada e roupas de marcas de surf que a encarava de maneira tão deselegante, quase a devorando com os olhos. Ela olhou, foi muito rápido, mas olhou.

Não demorou a pensar: "Até que ele é bonitinho, interessante. Podia tomar uma atitude, quem sabe? Podíamos conversar, falar sobre signos ou sobre o tempo, só pra começar. Tomar um chopp talvez, descobrir que temos gostos parecidos. Depois rolaria um cinema, eu daria uma mochila de presente e ele me amaria para sempre".

Seus pensamentos eram ambiciosos. Quando se deu conta estava rindo sozinha, adorano o fato de ser admirada. Pensando que a deselegância daquele olhar poderia ser entendida como um ato ousado. Muitos homens olham, alguns provocam, mas olhar e permanecer olhando quando os olhos se encontram só os homens de verdade. Ele devia ser especial. Sim, era um rapaz especial.

Tomada por um impulso, ela decidiu chegar mais perto dele. Estava tudo planejado, iria fazer uma pergunta boba, estratégica, como são todas as perguntas femininas. Ela era tímida, mas aquele olhar valia uma mudança radical de comportamento.

Quando ela estava se aproximando, percebeu que o rapaz olhava fixamente para outra direção. Inclusive movimentando o pescoço para enxergar melhor. Olhou pra trás e viu outra menina entrando no ônibus. Menina não, um mulherão. Desanimou, o odiou por breves segundos. Estava tudo acabado, ela podia admitir um olhar cafajeste, mas não um olhar traiçoeiro.

Exagerada? Talvez. Como todas as mulheres.

2 comentários:

  1. O desejo de sentir-se desejada pode causar 'danos' pronfundos a uma mulher. Foi ela quem presumiu que ele era um rapaz diferente, foi ela que disse para si mesma que aquele olhar queria dizer algo mais. Foi ela quem errou.
    Na hora dos olhares na rua, o negócio quase sempre é o seguinte: ao perceber que está sendo olhada(o), contente-se (ou não, dependendo do situação) e desencane. Já já aparece outra pessoa e os dois olhares se perdem!

    ResponderExcluir
  2. Como tu é criativo, não sei como tens uma imaginação tão vertil....ou as verdades se confundem em sonhos.......
    Olhares despertam desejos, sejem eles saudaveis sem maldade, a atração faz mexer com a gente. Fazem a gente mudar querer coisas novas, pois sabemos que se o caração aperta pela troca de olhares existe algo de incerto em nossas vidas, podem assim assumirmos novos rumos!

    ResponderExcluir

Obrigado por estar aqui.
Comente! Afinal este espaço também é seu.