quarta-feira, 26 de maio de 2010

Fobias

Não sei como se chamaria o medo de não ter o que ler. Existem as conhecidas claustrofobia (medo de lugares fechados), agorafobia (medo de espaços abertos), acrofobia (medo de altura) e as menos conhecidas ailurofobia (medo de gatos), iatrofobia (medo de médicos) e até a treiskaidekafobia (medo do número 13), mas o pânico de estar, por exemplo, num quarto de hotel, com insônia, sem nada para ler não sei que nome tem. É uma das minhas neuroses. O vício que lhe dá origem é a gutembergomania, uma dependência patológica na palavra impressa. Na falta dela, qualquer palavra serve. Já saí de cama de hotel no meio da noite e entrei no banheiro para ver se as torneiras tinham “Frio” e “Quente” escritos por extenso, para saciar minha sede de letras. Já ajeitei o travesseiro, ajustei a luz e abri uma lista telefônica, tentando me convencer que, pelo menos no número de personagens, seria um razoável substituto para um romance russo. Já revirei cobertores e lençóis, à procura de uma etiqueta, qualquer coisa.
Alguns hotéis brasileiros imitam os americanos e deixam uma Bíblia no quarto, e ela tem sido a minha salvação, embora não no modo pretendido. Nada como um best-seller numa hora dessas. A Bíblia tem tudo para acompanhar uma insônia: enredo fantástico, grandes personagens, romance, sexo em todas as suas formas, ação, paixão, violência, – e uma mensagem positiva. Recomendo “Gênesis” pelo ímpeto narrativo, “O cântico dos cânticos” pela poesia e “Isaías” e “João” pela força dramática, mesmo que seja difícil dormir depois do Apocalipse.
Mas e quando não tem nem a Bíblia? Uma vez liguei para a telefonista de madrugada e pedi uma Amiga.
– Desculpe, cavalheiro, mas o hotel não fornece companhia feminina...
– Você não entendeu! Eu quero uma revista Amiga, Capricho, Vida Rotariana, qualquer coisa.
– Infelizmente, não tenho nenhuma revista.
– Não é possível! O que você faz durante a noite?
– Tricô.
Uma esperança!
– Com manual?
– Não.
Danação.
– Você não tem nada para ler? Na bolsa, sei lá.
– Bem... Tem uma carta da mamãe.
– Manda!

(Texto do genial Luís Fernando Veríssimo, usei porque me familiarizo com o personagem principal)
Música do Camaleão: Hustler - Nas feat. The Game

4 comentários:

  1. Medo. Medo é um inicio, mas não um caminho, certo? Temer o desconhecido é necessário, temer o conhecido é falta de senso.
    Você, Fabio, talvez seja o único que comentando no meu blog não apenas me deixa feliz com a visita (claro!), como tambem me faz pensar um pouco mais no meu sentimento quando escrevi.
    Escrevi sobre medo e você me fez ver que não era necessário.
    Obrigada, amigo digital UAHSUIH :)

    bjs

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  2. Também me identifiquei com o personagem! Não conhecia esse texto.
    A poesia de Cânticos é mesmo linda! :D
    Em viagens de carro, que ler algum livro (revista, gibi, palavras cruzadas) me faz passar mal, eu leio placas. É tão divertido! *-*

    Beijo

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  3. Eu simplesmente sou apaixonada por Verissimo!
    Ri muito muito desse texto kkkkkkk, uma carta da mamãe, acho que o personagem ai precisa urgentemente de um laptop com uma bela lista de blogs, adorei mesmo.

    Beeijos e passa lá no blog.

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  4. Ahhh! Tinha que ser dele *..*
    Me identifico com o personagem também... Por isso sempre tenho um bom livro em mãos ;p

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