quinta-feira, 5 de agosto de 2010

Torcer

Comecei a gostar de futebol aos 9, durante a Copa do Mundo de 1994. No ano seguinte, meu clube, o Grêmio, formou um histórico time, que até hoje faz a torcida suspirar. Desde então, me tornei um fanático torcedor, um apaixonado, que admira ver e jogar este esporte.
Porém, ultimamente tenho me preocupado com este meu fanatismo, pois começo a perceber que às vezes (quase sempre) ele foge do meu controle. Há dois anos percebi que me transformo durante as partidas, fico irritado facilmente, falo palavrões que eu nem sabia que existiam e fico violento. Vamos deixar claro que esta violência não ultrapassa o campo do pensamento, mas infelizmente ela existe e é preocupante.
O pior de tudo é que a partir desta minha auto-análise, notei que isso não se trata de um problema individual. O fanatismo está se tornando um problema cada vez mais comum e que afeta demais a sociedade. Isso porque o futebol está perdendo o caráter esportivo e sendo levado muito a sério pelos torcedores.
Pensem comigo. Você está torcendo para o seu time, o jogo é decisivo, vale uma classificação ou melhor, um campeonato. Duvido que você não lembre do seu vizinho ou do seu colega de trabalho que torce pelo seu rival e que te enche o saco diariamente. Você quer calar a boca dele e a vitória do seu time vai te dar argumentos para você olhar e dizer: cala a boca, eu tinha razão. E é esta a frase que embasa a maléfica seriedade do futebol. As pessoas querem cada vez mais ter razão e seus times são o caminho para isso. E não caiam no conceito errado de que isso é saudável, pois na maioria das vezes estas “brincadeiras” assumem um tom muito mais sério do que aparentam.
Percebam que ganhar ou perder um jogo envolve muitos sentimentos, muitos ideais, muitas verdades e mentiras mascaradas... É impossível que isso não se torne estressante.
O esporte deveria valorizar o jogo, a disputa e até a rivalidade, ela é saudável e necessária, porém deve se limitar as quatro linhas. Não deve ser levada a séria, nem determinar comportamentos ou preceder ideais. Torcer é lazer, não guerra, nem negócios nem qualquer outra coisa. Torcer é como ir ao cinema, você faz aquilo durante duas horas e depois esquece. Mas não é isso que está acontecendo, o ato de torcer está criando discussões desnecessárias, incentivando brigas, atos de violência e depressões. É chato demais...
Quando imagino um cenário esportivo ideal, penso em um jogo disputado, com as torcidas apoiando os seus times e até se xingando, mas apertando a mão ao final do jogo e reconhecendo por hora as virtudes do adversário. Não foi bonito ver as torcidas misturadas na Copa do Mundo? Aliás, pegue qualquer vídeo de um jogo no Maracanã nos anos 70 e 80 e você verá as torcidas rivais dividindo a arquibancada.
O pior é pensar que as pessoas brigam por jogadores que não estão nem aí pra elas. Outro dia, o goleiro reserva do Santos apareceu em um vídeo dizendo que o que “ele gastava de ração pro seu cachorro era o que o torcedor recebia de salário”. É humilhante, mas é verdade. Agregamos tanto valor ao futebol, que hoje em dia qualquer jogador de clube grande recebe muito mais do que um trabalhador brasileiro de classe média. É injusto demais. Um jogador de futebol é mais valorizado do que um professor, um bombeiro, um médico... Profissões essenciais para o desenvolvimento de uma sociedade. Isso não expõe um fanatismo coletivo?
Enfim, estou tentando ver o futebol com um olhar menos doentio, acho que isso deveria se propagar. Às vezes, quando vejo que o futebol está me fazendo mal faço um exercício simples e eficaz, lembro que estamos apenas torcendo para que uma bola ultrapasse uma linha de cal. Acreditem, esta simplificação do esporte funciona quase sempre.


Do lado de cá – Chimarruts

Um comentário:

  1. Futebol é uma coisa que não entra na minha cabeça, sabe?
    Olha, eu digo que torço pra um time desde que me conheço por gente, mas acho que nunca assisti a um jogo inteiro, sem contar que não é dificil as pessoas me pegarem com comentários: "Cê viu com quem o Palmeiras joga hoje?" e eu só olhar e dizer: "Nossa, o Palmeiras joga hoje?".

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