sexta-feira, 3 de setembro de 2010

A Internet está te deixando burro

Sempre que passo na frente de uma Banca eu paro para conferir as capas das revistas. Uma das que mais me chamou a atenção nos últimos dias foi a da Galileu, que fazia o seguinte questionamento: “A Internet está te deixando mais burro?”.
Infelizmente ainda não tive a oportunidade de ler a matéria, mas resolvi refletir em cima do questionamento, com base no que observo. Cheguei a uma resposta assustadora: sim, estamos ficando burros por causa da Internet. Além de assustadora, essa resposta (que não é uma verdade absoluta) é um paradoxo, que nos induz a uma nova pergunta: Como a Internet está nos deixando mais burros se ela é um canal multimídia que oferece opções infinitas de conhecimento?
Pois é, a Internet facilitou muito a pesquisa, trouxe bastante informação e tudo isso em uma velocidade impressionante.
As qualidades da Internet são inegáveis, mas o problema não é exatamente ela, que é uma ferramenta, somos nós, que não sabemos utilizá-la.

Pense comigo.

Antigamente éramos um cara que colhia maças. As árvores ficavam muito distante uma das outras, por isso colher maçãs exigia de nós um esforço que tinha como conseqüência novas experiências. Caminhávamos, conhecíamos novos animais pelo caminho, conversávamos com as pessoas que passavam, víamos o Sol nascer... Enfim, colher maçãs proporcionava outras descobertas. Hoje as árvores se multiplicaram, estão muito perto umas das outras. Não precisamos caminhar muito pra chegar nelas. Não fazemos esforço algum...

Fui bem na minha metáfora?

Desculpem, foi a primeira vez que tentei criar uma história pra ilustrar a teoria....

Enfim...

Obter informação é tão, mas tão fácil e tão rápido, que não exige muito esforço. Ficou fácil demais e facilidade é o primeiro passo para o desinteresse. Estamos cada vez mais preguiçosos, nos conformamos com a primeira página que o Google indica, sem nem questionar se a fonte é segura. Muitos nem olha o conteúdo por inteiro, conferem só o título em negrito e o primeiro parágrafo pra ver se está bem escrito e olhe lá. É só copiar e colar no Word, formatar algumas coisinhas e o trabalho está feito. Mal feito.

Eu sou de um tempo (ó o papo de velho) em que a fonte mais exata de conhecimento escolar era uma biblioteca. Isso exigia de mim um empenho, uma pesquisa ampla, onde lia o conteúdo quase que integralmente. Eu não consultava um único livro, porque entendia que ele não era uma fonte absoluta – e porque a bibliotecária não deixava, era uma mãezona que me ajudava em tudo. Sabia que poderia encontrar informações diferentes em outros livros, o professor também exigia que eu encontrasse. Além disso, eu era obrigado a copiar manualmente o conteúdo. Não existia essa de Ctrl+C e Ctrl_V... Não existia computador! Lembro que fazíamos trabalho na máquina de escrever ou a mão em folha pautada.
Essas dificuldades contribuíam para que eu assimilasse a informação que eu estava pesquisando, já que eu mantinha um contato maior com ela. Eu vivenciava a pesquisa, era uma vitória achar a página certa, com o conteúdo que eu precisava. Hoje não há envolvimento, é tudo automático demais. As pessoas negam experiências, optando pela maneira mais fácil de resolver as coisas. Perdem a oportunidade de aprender mais.
Outra fonte de conhecimento era uma conversa. Podia não ser um conhecimento acadêmico, mas através das conversas compartilhávamos opiniões, manias, culturas... Havia mais socialização, encontros despretensiosos, “junções” como dizíamos. Atualmente isso até acontece, mas geralmente tem uma segunda intenção: tirar fotos para postar em algum espaço virtual. É nítido que essa é a preocupação número um de grande parte dos jovens...
A descrição do tempo livre da maioria dos jovens da classe média é triste. Eles passam o dia no computador, em mil e uma redes sociais, falando com pessoas de todos os lugares e etc. Entretanto, eles têm contato físico mínimo com pessoas. Aliás, na Internet o amor e o ódio se propagam com uma força incrível. É fácil amar alguém nos caracteres no mundo virtual. Já na vida real esta cada vez mais difícil dar um abraço sincero. Xingar também é uma arte na Internet. Nas ruas a indignação é trocada pela infelicidade e olhares vazios.
A vida dos jovens está sendo sugada pela Internet, proporcionando uma experiência quase que uniforme entre eles. Diversas culturas são canalizadas em uma só. É como se jogássemos punks, rappers, patricinhas, nerds, jogadores de futebol e pagodeiros em um funil, e fechássemos todos em um pote transparente, que permite ver tudo, mas interagir com quase nada. No fim, todos falam do mesmo jeito, compartilham opiniões similares, possuem as mesmas manias (tipo colocar LUTO no orkut só pra chamar atenção), mesmo possuindo gostos diferentes. Todos são praticamente iguais, pois vivem as mesmas coisas, do mesmo jeito. São manipulados pelo mesmo sistema, quase como se estivessem trancado em Matrix. Totalmente desligados da vida real.

Confirmo que a Internet está nos tornando mais burros, pois deixamos de viver experiências para termos conforto e facilidade. Queremos tudo e conseguimos quase nada. Eu mesmo sou vítima desse ciclo vicioso, esse texto é um alerta pra mim, que a primeira coisa que faço quando chego em casa é ligar o computador. O meu caso é até pior, pois vivi um mundo onde nada disso existia e eu vivia tranqüilamente, fazendo coisas que nem lembro mais – algo que me dá medo.

É inegável que a Internet é preciosa, possui muitas possibilidades. Tudo ficou mais acessível e isso é saudável a medida que for utilizado com sabedoria. Minha mensagem convida a todos a viver. Baixe um álbum na Internet, se ele for bom demais tenha a sensação de ir até uma loja e o prazer de comprá-lo (hoje ta barato). Use o MSN para falar com quem está longe, reserve uma parte do dia para encontrar pessoalmente que está por perto. Comece uma pesquisa no Google, aprofunde-a na Biblioteca.

VIVA a vida real!

A Internet é só um suporte, é burrice demais acreditar que ela pode superar o prazer de viver...

Ao som de: Tempos Modernos - Lulu Santos

"Hoje o tempo voa amor
Escorre pelas mãos
Mesmo sem se sentir
Não há tempo
Que volte amor
Vamos viver tudo
Que há pra viver
Vamos nos permitir..."

3 comentários:

  1. Concordo plenamente com você, Fábio. Muitas pessoas que conheço falam que já não sabem mais escrever à mão, pois o computador tornou tudo muito fácil; você pode escrever qualquer coisa, se errar ou não gostar é só deletar e começar de novo. Claro que em relação ao conhecimento e experienciação das coisas perdemos demais por termos essas facilidades informáticas de hoje. Só tem uma coisa que eu não faço ao chegar em casa que é correr pra ligar o computador, pois ele já está ligado há horas... rsrs
    Ótimo post, muita coisa a se pensar e discutir.
    Bom fds, bjks.

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  2. Me lembrou muito a música Xanéu n. 5, do Teatro Mágico, mesmo que a crítica da música seja à Televisão...
    Eu sou uma pessoa que tem SEDE de conhecimento, mas não sei canalizar. Por causa da minha ansiedade, quero aprender TUDO ao MESMO tempo. Aí vira bagunça.
    Mas com o tempo eu consigo aprender a me organizar com isso..

    Enfim, beijo! x)

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  3. Interessante a sua reflexão vir em um momento tão oportuno, em que o Twitter tornou essa "facilidade" de informação ainda mais evidente. Acho que facilidade só é desculpa para desinteresse para quem, por natureza, já não se interessaria. A Internet deu a nós a possibilidade de acessar uma quantidade de conhecimento absurda e aprender com cada linha que lemos nela. Acontece que, com essa "facilidade", muita gente simplesmente não se dá ao trabalho de absorver a informação, muito menos digeri-la e transformá-la, assim, em conhecimento.

    A sua mensagem é muito válida, acho que é uma reflexão que todos nós deveríamos fazer dia-a-dia, nos perguntando o quanto nos tornamos "amedrontados" com a vida real, e a trocamos pela virtual.

    Abraço! :D

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