terça-feira, 12 de outubro de 2010

Tropa de Elite 2



No post passado eu tentei resgatar a principal pauta do primeiro Tropa de Elite, que era a contribuição que as classes de maior poder aquisitivo davam ao tráfico de drogas e, conseqüentemente, ao crescimento da violência. Existiam outras questões é claro, como a corrupção policial e a integridade do BOPE, mas o soco na sociedade foi dado com a questão das drogas.  Essa foi a grande polêmica que gerou grandes debates naquela época. A mensagem do filme era linear e direta,  simples compreender. Isso  muda  em Tropa de Elite 2, quando nos deparamos com uma história muito mais complexa. A maioria dos elementos do filme passado servem como base para este. Tem ação, mas desta vez ela não é o elemento principal. Há mais diálogos, mais personagens, mais situações. A proposta é mais profunda e o "debate" gira em torno de várias questões.   
A abertura "apela" para a música tema,  situando o espectador através de mini-flasbacks. O público fica à vontade, principalmente quando mais uma vez, temos a história narrada por seu protagonista principal, o Capitão Nascimento que agora é Coronel Nascimento. Outra coisa que se repete é a narrativa da história. Se não me engano, Tropa de Elite 1 tinha a narrativa circular (quando uma história começa de um ponto, volta ao passado e retoma ao ponto inicial). Isso sem contar alguns personagens já conhecidos pelo público como o agora Capitão André Mathias ou o corrupto Capitão Fábio (que garante humor e surpresas quanto à sua postura), além de manter a bela fotografia do filme, sua linguagem pesada e a tensão das cenas – aliviadas por geniais sacadas de bom humor.
O filme começa com um atentado ao Coronel Nascimento e com ele dizendo que finalmente tinha entendido quem era seu verdadeiro inimigo (nada que você não tenha visto no trailer). A história começa a ser contada há 4 anos atrás, em uma rebelião no presídio BANGU 1, fato crucial para todos acontecimentos que ocasionaram aquele atentado. A partir daqui você vai ver um personagem ser completamente desconstruído. O Coronel Nascimento que antes era um guerreiro implacável no primeiro filme, agora é um homem inseguro, cheio de receios e fora do seu campo de ação. Ele tem problemas pessoais (que iniciam no primeiro filme), veste terno e gravata e demora para perceber que o seu inimigo é outro, algo abstrato  e muito mais poderoso do que ele pensava. O inimigo é o Sistema, formado por interesses pessoais e pelo jogo de poder político. Tudo isso se desenvolve em um delicioso e bem planejado roteiro, capaz de contar uma história longa e nervosa de forma muito natural tanto que você nem percebe o tempo passar. As cenas de violência são fortes, inesperadas. Diferente de outros filmes do gênero, o diretor não prepara o público para elas. Elas acontecem com uma naturalidade assustadora, traiçoeiras como na vida real.

Espancamento moral
Desta vez, a sociedade não recebe um soco no estômago, ela é espancada com verdades sombrias, difíceis de aceitar. Verdades tão bem explicadas que é impossível você não sair atônito, pensativo e até assustado do cinema. Verdades que deveriam ser encaradas, mas que normalmente são esquecidas. É confortável abraçar a mentira, dormir e sonhar enquanto essas barbaridades realmente acontecem todos os dias. Talvez um dia isso respingue em você, talvez. Viver com essa incerteza é mais fácil do que enfrentar a verdade. O grande mérito do filme é esfregar isso na sua cara, te dando um choque, numa nobre tentativa de acordar o povo através da 7ª arte. É claro que a maioria das pessoas manterá sua postura passiva, pois devemos reconhecer que não é fácil sair do sistema, você corre riscos se fizer isso (coisa que o filme ressalta). Mas o fato de incentivar a reflexão popular já torna Tropa de Elite 2 um filme "obrigatório" para qualquer brasileiro. Ahh se fosse lançado antes das eleições, poderia ter feito uma grande diferença nas urnas. Mas é uma hipótese meio utópica da minha parte.

Confirmações
Nesta seqüência temos a confirmação de José Padilha como um dos diretores mais talentosos do cinema brasileiro. Não é fácil fazer a continuação de um sucesso, quantos filmes você conhece que tiveram seqüências boas? Poucos! A maioria das sequências não tem fundamento, tendo objetivos comerciais e subestimando a inteligência dos fãs. Essa não, ela é uma evolução, é melhor que o seu antecessor - o que não é um desmerecimento e sim um reconhecimento. Além disso, ele faz um filme que mistura muito bem ação, drama e reflexão, outra coisa rara de se ver no cinema.
Vale destacar que o elenco todo cumpre seu papel muito bem, com destaque para André Ramiro (Capitão André Mathias),  Milhem Cortaz (Capitão Fábio), André Mattos (um deputado orrupto e apresentador de um programa policial apelativo),  Irandhir Santos (Franco, historiador, deputado e defensor dos direitos humanos) e Sandro Rocha (o Russo, um asqueroso e cruel policial), responsável pelas cenas mais chocantes do filme. Eu nem vou elogiar o Wagner Moura por que isso é quase que desnecessário. O cara é foda! Rouba a cena. Não tem o que falar dele. É um ator que interpreta papéis completamente diferentes com a mesma qualidade. Você nem lembra que o Coronel Nascimento (maior herói cinematográfico do Brasil, na minha humilde opinião) é interpretado pelo mesmo ator que fez o atrapalhado Joaquim na comédia “Saneamento Básico”. Esse lapso de memória é o melhor elogio que um ator pode receber.
Enfim, assista Tropa de Elite 2, que já pode ser considerado um marco no cinema brasileiro. Você vai ter um filme repleto de bons personagens, ação, efeitos especiais, fotografia, roteiro inteligente e, principalmente, verdades. Uma dica: a melhor cena é quando Nascimento espanca um político. Uma cena comparável ao fuzilamento de Hitler em Bastardos Inglórios. Um prazer macabro, como a cena da passeata de paz do filme anterior.
Veja e sinta-se bem se sair atônito do cinema, isso significa que você não é alienado.

Ao som de: Fake Tales of San Francisco -  Artic Monkeys

2 comentários:

  1. Eu não gostei do primeiro Tropa de Elite, dormi com minutos de filme.
    Mas com certeza, assim como o segundo, deve ser um tapa na cara de muita gente!

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  2. Ainda não consegui ver o filme. As filas serão eternamente quilométricas e eu preciso me planejar melhor... Enfim, a maioria das pessoas que assistiram, acharam o filme 2 melhor que o 1. Eu, que gosto muito de ação estou apreensiva, a história vai ter que me prender - e acho que vai. Ouvi um comentário que achei interessante, mas não sei se procede "se o filme 1 fz o jovem querer combater o crime, o filme 2 vai testar essa vontade".
    Verei.

    Enquanto isso, o vermelho continua ai, seguindo sua árdua saga de apertar um botão de valor negativo, sem fundamento algum.

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