sexta-feira, 26 de novembro de 2010

Carta ao meu filho que ainda não nasceu

Querido filho,


Não quero ser dramático, mas estou preocupado com você. Muito vão dizer que sou louco, que você nem nasceu e eu já estou todo paranóico. Realmente, você ainda nem existe e nem sei quando vai nascer, mas eu te amo. Tenho certeza que o dia mais feliz da minha vida será o dia em que pegarei você nos meus braços, com o cuidado que o ser mais precioso do mundo merece. Não sei qual será o seu sexo, não sei qual será o seu signo e nem para que time você irá torcer. Talvez você nem goste de futebol. Não importa, vou te amar de qualquer jeito. É uma certeza existe dentro de mim.

Já tenho planos, quero te contar histórias antes de você dormir, inventar algumas. Vamos nos divertir muito, guardo meu espírito infantil para compartilhar com você. Vou te encher de conselhos, espero que você cometa erros e que aprenda com eles. Muitas vezes vamos brigar, mas isso é normal. Espero que você não herde meu gênio e minhas manias. Me cobre se um dia eu não for atencioso.

Espero que esses sonhos se realizem, porém, tenho algumas preocupações que preciso compartilhar com você. Desculpe se estou sendo afobado, mas a vida nos sufoca. Procuramos as soluções mais absurdas para resolver nossos problemas. A minha foi enviar uma carta para você.

Minha carta cheia de antecedência tem um motivo: estou com medo do futuro. Às vezes me pego pensando se não seria um crime te trazer ao mundo. É meio radical eu sei, espero que não fique magoado comigo. Leia até o final e talvez você possa me entender.

Esse mundo é louco meu filho e está cada vez pior. O céu já não é mais tão azul e é cada vez mais difícil olhar as estrelas à noite. Isso é culpa da poluição, um hábito que o ser humano intensificou desde a Revolução Industrial (que um dia você vai estudar). Poluímos o ar, mesmo sabendo que isso pode ter consequências horríveis. O verão está mais quente, os invernos rigorosos. Volta e meia somos surpreendidos pelo tempo. Criamos cidades em lugares impróprios, tragédias acontecem.

Meu medo em te conceber só aumenta quando vejo as notícias nos jornais. É muita violência, muito assalto, muito estupro, muitas drogas, muito desrespeito, muita corrupção, muita dor. Há muita ignorância neste mundo e ela só aumenta a dor. As pessoas não querem tentar entender o mundo e as outras pessoas, a maioria só querer saber como vai atingir seus objetivos. O mais incrível é que se cada um olhasse por lado uma ou duas vezes por dia, talvez o mundo não fosse tão cego e a vida seria mais fácil.

O que mais me dá medo são as previsões sobre o futuro. Toda hora alguém aparece dizendo que em 2050 o mundo será um caos, que não teremos mais água para beber, que o planeta será mais quente, que haverá muitas guerras por recursos naturais que hoje desperdiçamos. Estas previsões são para daqui 40 anos! Como posso te trazer a vida se as perspectivas são tão ruins? Pra piorar, essas previsões não assustam muita gente. Poucos tentam amenizar isso. Os governos ignoram, a grande maioria das pessoas também. Temos milhares de anos de existência e não aprendemos a enxergar o futuro.

Aliás, as pessoas me assustam. Agora mesmo, o Rio de Janeiro está vivendo uma guerra entre traficantes e policiais, onde a troca de tiros é feita sem nenhuma cerimônia. No conforto e na segurança das suas casas, algumas pessoas torcem para os policiais encherem os bandidos de bala. Elas não pensam nas pessoas inocentes que estão no meio desse fogo cruzado. Pra muitos, colocar no canal de notícias e ver humanos se matando é uma diversão.

Me diz filho, como posso te trazer com tranqüilidade pra esse lugar?

Meu medo só aumenta, mas minha vontade de te ter também. Minha juventude aos poucos vai desaparecendo, já fico cansado quando corro atrás do ônibus. Ainda tenho tempo, mas ele é cada vez menor. Por vezes, meu medo dá espaço a uma esperança. Ela me diz que isso tudo vai mudar, que aprenderemos a viver sem tanta dor. Será?

Jamais quero colocar essa esperança toda em você. É preciso aprender que lutamos contra o destino, que o futuro não pertence apenas às gerações mais jovens. Quero poder sonhar com você, quero que um dia você leia essa carta. Por isso, juro lutar para que o mundo fique mais calmo e que você possa existir.

Ao som de: Letter to my Unborn Child - Tupac

2 comentários:

  1. Ai Fábio. Eu sou apaixonada com criança. Sonho em ter mais de um filho, mas também morro de medo. Será que a gente vai ter que se privar de uma das delícias da vida, para não colocar outras vidas em risco? / Será que a gente vai ter que deixar de ter filhos para não trazê-los a esse mundo cão?

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  2. Apesar da minha pouca idade, isso tem me preocupado muito também.
    Não queria ter que abrir mão de um sonho (ser mãe) pra salvar uma vida. Não sei se é egoísmo pensar em ter um filho e colocá-lo nesse mundo, ou se é egoísmo privá-lo de viver.
    "Pra variar, estamos em guerra..."


    beijos

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