quinta-feira, 4 de novembro de 2010

Verossimilhança

Durante muito tempo eu cometi um erro típico dos jovens: análise apressada. Que mania engraçada essa que nós temos de achar que entendemos tudo sobre o mundo ao ser apresentado pra ele. Na adolescência somos petulantes, acreditamos que enxergamos tudo, mas não sabemos de nada. Somos apressados.
Anos atrás eu amaldiçoava a Língua Portuguesa. Pra começar, eu considerava complicada demais, tanto para nós que convivemos com ela como para estrangeiros que a observam de longe. Todo mundo evita o mais difícil. Por vezes, chegava a protestar contra o fato de termos sido colonizado por portugueses e não por ingleses. Pensava que se falássemos o idioma “mundial”, teríamos mais chance de ser primeiro mundo, afinal, desde a Roma Antiga o idioma sempre foi o primeiro passo para o domínio cultural de um Império.
A língua portuguesa foi uma das poucas coisas boas que os colonizadores (gosto de chamá-los de invasores, mas isso é assunto pra outro post) nos deixaram. Aliás, defendo a ideia de que nosso idioma não é português e sim brasileiro, devido às transformações que ele sofreu, graças à mistura de culturas. Os negros, os índios, os imigrantes... Todos contribuíram para a formação do idioma português que é falado no Brasil e que é bem diferente do que é falado em Portugal.
O que quero destacar é que devemos ter orgulho da Língua Portuguesa, porque ela é rica e até muito superior à Língua Inglesa. Ela é difícil sim, exatamente por ser expressiva demais e apresentar muitas possibilidades.

Tudo isso pra dizer (adoro começar um texto com uma introdução lenta, desculpem, é mania) que a Língua Portuguesa me surpreende e que todo ano eu aprendo algumas palavras que ela oferece. Recentemente aprendi a palavra “verossimilhança”, que significa:

“em linguagem corrente, é o atributo daquilo que parece intuitivamente verdadeiro, isto é, o que é atribuído a uma realidade portadora de uma aparência ou de uma probabilidade de verdade, na relação ambígua que se estabelece entre imagem e ideia”.

Sendo mais sucinto, verossimilhança é o que é semelhante à verdade. Aprendi a palavra no contexto da produção audiovisual, por isso quero rapidamente falar sobre a aplicação dela neste meio. Segundo minha professora, toda produção de roteiro audiovisual deve se preocupar com a verossimilhança. Mesmo um roteiro que não trabalhe com a realidade, como a comédia pastelão ou uma ficção,  deve ser coerente com aspectos dela.  
Eu acho que anda faltando verossimilhança às novelas brasileiras. Olha o exemplo de Passione. Aquilo não existe! Aquilo é completamente absurdo. Duas coisas me indignam muito no roteiro dessa novela: a adaptação dos italianos ao Brasil e os vilões que se transformam em mocinhos. Confesso que não acompanho diariamente a novela, vejo pelos comerciais e em dias em que resolvo ficar com a família na sala. O pouco que vejo é suficiente para eu ter essa sensação de falta de verossimilhança.
Um dia eu vi a Clara (Mariana Ximenez) queimar a casa do cara, chamar todo mundo de maldito e bolar os planos mais mirabolantes para pegar o dinheiro do pobre Tony Ramos. No outro eu vi ela totalmente boazinha, aguentando humilhações em um restaurante e sonhando com o pobre Tony Ramos. Também dou risadas (pra não chorar) quando vejo uma família inteira de italianos vindo para o Brasil e se adaptando com a maior facilidade. Aliás, nas novelas brasileiras, os estrangeiros sempre se adaptam fácil ao Brasil e ao seu difícil idioma. Eu já vi grego, marroquino, japonês, indiano e até americano (se bem que este é o único, ao lado dos italianos, que carrega sotaque) chegando no Brasil e se comunicando com facilidade. Isso é totalmente irreal. Incoerente! Custo a acreditar que o brasileiro aceite isso. Ou a televisão pisa na inteligência do povo ou o povo é burro mesmo.
Vejam bem, não estou pedindo uma novela perfeita, sem erros. Novelas são linguagens populares, que muitas vezes usam estereótipos e outros argumentis mais populares, mas isso não quer dizer que ela deva fugir completamente do real. Entendam. Nenhum vilão vira mocinho da noite pro dia, nenhum estrangeiro aprende português em poucos dias e poucos são os brasileiros que tomam um café da manhã tão completo como o das novelas.Isso não é nem um pouco semelhante à realidade.


Ao som de: Forgot - Linkin Park

2 comentários:

  1. Faz tempo que eu perdi o hábito de assistir TV. Não consigo mais parar, sentar no sofá e assistir alguma coisa por mais de cinco minutos. Dessa novela eu não assisti um capítulo sequer, tudo o que sei é do que a Rita Lee tuita.
    Adoro a língua portuguesa, acho rica demais, e sou contra a reforma ortográfica, MUITO contra.


    beijo

    ResponderExcluir
  2. De vez enquando dou uma espiadinha na novela e reparo em tudo isso também. Mas faz tempo que eu parei de gostar de novelas. Primeiro por causa dos clichês e depois por causa dessas fantasias todas. Passei a me concentrar mais em programas que retrtam mais a realidade. Hoje, confesso, sou audiência do Discovery Home&Health que é cheio de programas com pessoas reais, em situações reais. É claro que não é tão comum receber a supernany em casa, ou trocar de familia com outra mulher e tal, mas não é tão fantasioso, entende?

    Quanto à lingua portuguesa, faz tempo que não a estudo e já me esqueci de muitas coisas (algumas nem aprendi, depois da reforma). Mas acho bonita e não sei bem porque, mas me orgulho de saber que é uma língua difícil ;D

    ResponderExcluir

Obrigado por estar aqui.
Comente! Afinal este espaço também é seu.