quarta-feira, 22 de junho de 2011

É sobre amor



Lembro que quando Californication estreou, acho que em 2007, só se falava em uma coisa: as picantes cenas de sexo.  Como a maioria das análises que li na época se limitava destacar isso, pensei que se tratava de uma série apelativa e sem nada para acrescentar. Mas, ignorância é curada com informação, e o destino (às vezes acredito nele) recentemente colocou no meu caminho um blog interessante (que esqueci o nome), que analisava a série mais profundamente e refletia sobre o seu real significado. O texto dizia que Californication até tinha o sexo como tema central, mas sua maior intenção era falar sobre amor. Isso me intrigou e senti necessidade de ver como esse conflito funcionava. E não é que funciona? Californication fala com muita propriedade sobre amor, é autêntico e cru.

Um escritor sem palavras
O personagem principal é Hank Moody (David Duchovny, aquele de Arquivo X), um brilhante escritor, que passa por uma interminável crise criativa, que inicia quando ele termina o seu relacionamento com Karen, amor da sua vida e mãe da sua filha, Becca. A partir disso, Hank inicia um processo de autoflagelação, já que se sente culpado por ter arruinado a melhor coisa que fez na vida: sua família. Apegado ao passado, ele não consegue seguir em frente, estaciona na vida e se desvaloriza ao extremo. Fica com várias mulheres, sem conseguir se apegar a nenhuma, bebe demais, usa drogas eventualmente, não consegue se manter um trabalho, não consegue escrever.
O que acompanhamos é a angustiante luta de Hank por algo que ele nem sabe o que é. Na verdade, vejo ele como um ícone de uma geração, de pessoas que possuem um objetivo, mas não conseguem manter o foco necesário para atingi-los. Visivelmente ele quer sua família mais que tudo, mas se contradiz o tempo todo, se deixando levar pelas tentações do mundo. Muitas vezes ele está muito perto de atingir sua meta, mas estraga tudo com uma besteira. Seria irritante, se Hank não fosse tão carismático.

Sexo, drogas e rock'n roll 
A série é produzida pela Showtime, e quem conhece o canal,  sabe que ele preza pelo politicamente correto. E Californication representa muito bem isso.
As cenas de sexo são fortes e não há pudor nenhum de mostrar o consumo de drogas. O fato é que essas cenas se encaixam perfeitamente no propósito da série. Por incrível que pareça, o sexo é banalizado e o consumo de drogas é acompanhado de lições de moral valiosas. O mulherengo Hank, inúmeras vezes aconselha seu amigo Charlie (que passa por uma crise no casamento ao longo da série) a valorizar a mulher que tem e esquecer as tentações que vem de fora, pois essas são superficiais e o máximo que oferecem são prazeres momentâneos. Nos raros momentos em que é feliz de verdade, ele está com sua família ou com seus verdadeiros amigos. Essas cenas geralmente possuem uma fotografia mais caprichada, uma trilha sonora mais calma, contrastando com a iluminação mais densa e rock'n roll pesado das outras cenas. 
Eu vejo isso como uma forte crítica ao conceito de felicidades da sociedade contemporânea. Cada vez mais as pessoas buscam relacionamentos vazios, prazeres fúteis e imediatos. A série defende esses valores esquecidos. De uma maneira complexa, mas eficaz.
Californication se apresenta como uma grande armadilha ao espectador que vê a série só pelas cenas fortes que ela oferece. Ele tem o que quer, mas recebe um tapa na cara e uma lição de moral. Alguns nem vão perceber, outros irão pensar... No fim das contas, o que vemos é uma história de amor, sem máscara, hipocrisia ou finais felizes ilusórios. É uma história de amor crua, que emociona sem apelar para o irreal. É o mundo como ele é, os relacionamentos como eles são, com seus lados positivos e negativos.

E é isso que faz série boa, além é claro, da boa trilha sonora, sustentada pelo bom e velho rock'n roll.


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