terça-feira, 30 de agosto de 2011

À procura do poeta

Bellavista
Passado o aperto com os pedintes, saí disparado rumo à La Chascona – a Casa Museu do poeta Pablo Neruda, que ficava a poucos minutos do Museu de Arte Moderna. Bom, já adianto que minhas noções de distância são péssimas e que meu passo é apressado, ou seja, cheguei lá em pouco tempo, o que não significa que é “perto” de onde estava.

Eu tinha duas opções. Ir pela avenida, admirando o Rio Mapocho ou pelo “coração” do bairro. Escolhi a segunda, é óbvio. Durante a caminhada conheci o bairro Bellavista, que é descrito nos guias como o bairro boêmio e artístico da cidade, e é mesmo. Sabe quando você transpira “cultura”? Não sei se isso é comum, mas acontece comigo. Eu me senti transpirando cultura ali. Como se estivesse rodeado por pensadores e artistas. As casas do bairro, por exemplo, eram muito coloridas, como se compusesse uma obra de arte! No chão, mosaicos enfeitavam as calçadas. Nos muros, grafites exaltavam a arte urbana e lembravam os principais nomes da literatura chilena. Além disso, o bairro é uma fuga do movimento caótico de Santiago. Ali você descansa o espírito...

No bairro há basicamente 3 coisas pra fazer (que eu sei, é claro): ir em La Chascona, ir na noite boêmia (é cheia de barzinhos e pubs) e ir no Cerro San Cristobal. Infelizmente só fiz uma das 3 opções. Gostaria muito de ir no Cerro, pois dizem que é fantástico e garante belas fotos, mas achei que não daria tempo... Certo que se eu voltar a Santiago a primeira parada será no Cerro.

Cheguei em La Chascona com medo de não conseguir entrar. Muitas pessoas dizem que está sempre lotado e que é preciso agendar. Não sei se é mentira ou se dei muita sorte, pois cheguei lá perto das 14:10 e consegui comprar ingresso para a visita das 14:30 (um guia acompanha um grupo de 10 pessoas de 15 em 15 minutos). Ainda deu tempo de ir ao banheiro, comprar um livro do poeta e sentar no barzinho do museu pra descansar um pouco. Às 14:30 um grupo de 5 pessoas (incluindo eu), começava a explorar a casa do mais famoso poeta do Chile e da América Latina.


O mar no meio da cidade

Um dos pontos chatos da visita é que é proibido fotos. Mas não importa, a beleza e a singularidade arquitetônica da casa são tão fortes que ficarão marcadas por muitos anos na minha memória. Neruda construiu essa casa pensando em Matilde, sua amante que mais tarde se tornaria sua esposa. O poeta chileno teve um romance secreto com Matilde por 5 anos e só não se separou antes porque o divórcio não existia naquela época.

La Chascona foi cuidadosamente planejada para homenagear uma das maiores paixões de Neruda: o mar. A casa internamente lembra um barco, até mesmo nas dimensões. Tudo lembra o mar. Tudo! Desde os utensílios até o mobiliário. A escada do primeiro para o segundo andar, por exemplo, era em aspiral, igualzinha a de um navio. O escritório do poeta (que ficava em outro lugar, longe desse prédio), era inclinado e fazia o movimento de um barco (genial!). A guia disse que no pátio havia um “rio”, que recebia água natural vinda do Morro de San Cristobal. Tinha até uma ponte, que ligava o segundo andar da casa ao pátio. Infelizmente esse detalhe foi destruído pelo governo militar, que tomou a casa de Neruda após a sua morte – ele era comunista.

Quando você entra pensa que a casa é pequena (pelas dimensões), mas logo perceber que ela é extensa, cheia de salas e quartos. A casa fica no pé do Morro, então o pátio é inclinado, cheio de árvores. Como disse antes, o escritório de Neruda fica afastado da casa. O escritório tem uma decoração diferente, mais séria e fechada, já que ali era um espaço pra trabalho. Ali tem vários jornais, fotos e mapas (ele era um colecionador de mapas de navegação). Chamou-me a atenção uma foto de Neruda com Jorge Amado e Vinícius de Morais e um relato dele em uma coluna que tinha em um jornal sobre sua visita ao Brasil. Deu pra ver que ele era um admirador do nosso país e de nossos artistas.

O sentimento

Sabe aquele negócio de transpirar cultura? Ali eu senti mais forte. Foi emocionante estar na casa de um artista tão importante como Pablo Neruda. Saí de lá inspirado, feliz por ter tido aquela experiência. Recomendo a todos que gostam de literatura a passagem pelo Museu (o preço pra entrar foi aproximadamente 10 reais), pois é uma viagem incrível. Uma viagem à essência de Neruda, à casa que ele fez em homenagem a suas paixões: o mar e sua mulher, Matilde.

Uma viagem indescritível, por mais que eu tente traduzir em palavras, jamais vou conseguir expressar o que senti ali dentro. Foi um dos pontos mais altos da minha viagem.

Tá tocando no iPod: Oleada - Julieta Venegas


"Voy en busca de un lugar,
en este mundo abierto
donde me pueda yo quedar,
para empezar de nuevo.

Y nadie ahí me conocerá,
y a nadie ahí reconoceré
pero no tengo miedo"

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