segunda-feira, 12 de setembro de 2011

Finalmente a Neve

Desde pequeno sonhava com a neve. Nada incomum, já que cresci assistindo filmes e desenhos estrangeiros que tinham como cenário um inverno branco, que às vezes parecia ser divertido, às vezes parecia ser romântico, às vezes aterrorizante... O fato é que a neve sempre me fascinou, talvez por ser algo distante da minha realidade, da minha experiência. Eu finalmente iria realizar este sonho e a ficha caiu na noite que antecedia o grande dia.

Como falei antes, a maioria das coisas estava fechada, pois era Domingo e quase tudo para em Santiago, principalmente à noite. O tempo não passava, então lembrei que o terraço do hotel oferecia uma vista linda da cidade. Decidi ir pra lá, pensar um pouco.

Ao ver a imensa cidade do topo do prédio, me senti um cara realizado. Percebi que estava no topo do MEU mundo, fazendo a coisa que eu queria, realizando os meus desejos. Refleti bastante sobre meu ano até então, ano que eu amaldiçoava, mas que me trouxe experiências enriquecedoras. Caí demais em 2011, sofri também. No entanto, essa dor me fez mais forte, me provocou. Decidi sair da inércia, lutar pela minha felicidade. E lá estava eu, feliz no topo de um prédio em Santiago, olhando a Cordilheira dos Andes e sorrindo pra ela.

Subindo a montanha

 Imagine subir milhares de metros em apenas algumas horas? É assim que fazemos pra ir de Santiago às Montanhas. Temos pela frente um caminho bem inclinado e cheio de curvas perigosas. É enjoativo pra maioria dos desacostumados, seria pra mim, se eu não estivesse tão fascinado com a paisagem. Eu literalmente viajei nelas. Coloquei a trilha sonora de “Na Natureza Selvagem” e fui observando as rochas serem pintadas de branco aos poucos. Nem percebi quanto tempo de viagem, acho que menos de duas horas, estava vidrado demais.


Preço Salgado

Eu tive a sorte de subir a montanha com um motorista muito legal e uma família acolhedora. O motorista era um chileno de meia idade, que carregava orgulhoso a foto do filho no celular. Ele me explicava tudo o que eu perguntava, com a paciência e a timidez chilena que já tinha me acostumado. Já a família era animada, ficamos amigos em minutos e combinamos de tirarmos fotos uns dos outros. Logo descobrimos que além de colocar sal na neve (para abrir o caminho), os chilenos salgam ainda mais os preços nas estações. Só para vocês terem noção, antes de subir a cordilheira eu aluguei uma calça térmica e botas, paguei R$60! Por sorte o motorista me emprestou as luvas dele, o que aliviou meus gastos. No Vale Nevado, a principal estação de esqui, o aluguel das roupas é mais barato do que na loja “para brasileiros” que me levaram, mas não compensa. Se você aluga ali, só pode ficar ali. Eu juro que pensei em esquiar, mas também era caro, fora que eu não sei esquiar, ou seja, tinha que pagar uma aula básica, o que também era caro. Uma dica: leve comida se der. Meu almoço foi um crepe de Nutella, que custou R$16,00. Mas detalhe para o “crepe”: Era uma massa de panqueca enrolada com Nutella dentro. E só.



A Neve
O lado positivo do Vale Nevado é que se você não vai esquiar, você pode pelo menos brincar na neve. Não há muito espaço para isso, visto que tem pista de esqui por todo lado, mas logo achamos um cantinho onde eu me atirei na neve, onde eu fiz bola de neve, onde eu deslizei na neve, onde eu afundei na neve... Só não fiz um boneco de neve porque ela é mais dura do que eu imaginava, depois até descobri uma parte mais “fofa”, mas era tarde demais. Eu brincava como uma criança! Nem tenho palavras pra descrever minha felicidade.

O Vale Nevado

É ótimo para quem vai esquiar, tem uma estrutura fora de série, com hotéis, restaurantes, lojas (muitas lojas), piscina térmica (ô coragem pra usar ela), inúmeras pistas e equipamento de qualidade. É um lugar para quem está disposto a gastar uma nota, eu não podia me dar ao luxo, não era a prioridade. Estava satisfeito em brincar na neve. Prometi que voltaria e na próxima vez iria esquiar de verdade. Mas ó, dei jacaré na neve...


Presente de Deus

Desculpa se você é ateu, mas eu olho pras Cordilheiras e não tenho dúvidas que Deus existe. Aquilo ali é um presente Dele para a humanidade, um presente para nossos olhos. O que detona o mundo é o homem, lá na estação eu vi gente colocando lixo no chão... Aí você começa a desistir da humanidade. Num paraíso como aquele, existe gente que é incapaz de procurar uma lixeira, de preservar pelo menos aquele cantinho.

El Colorado

Às 15h decidimos conhecer a estação “El Colorado”, que fica uns metros abaixo. Logo que chegamos notamos a nítida diferença entre as duas. El Colorado é quase uma cidade no meio da montanha, aliás, tem uma cidade ali! Além disso, é menor como “estação”, mas oferece mais opções de lazer. Lá você pode pagar pra deslizar no gelo em uma bóia. O problema é que tem horário. Se você perde um horário, tem que esperar o próximo. Perdemos um horário por míseros 5 minutos! Ficamos bem chateados, pois, apesar do preço (32 reais por hora), parecia ser divertidíssimo. O defeito de El Colorado é que você não tem acesso à neve, só pagando pra entrar. Como faltava apenas uma hora pra irmos embora, decidimos não entrar. Dei a última olhada na Cordilheira e me despedi. Prometi que voltaria, que contaria aos meus amigos como ela era linda e imponente. Mais uma vez agradeci a Deus por estar ali. Fui embora com aquele pesado gosto de “quero mais”.

Descida complicada

Na ida nem liguei pro tal enjoo, né? Na volta foi diferente. Eu me senti muito mal. A cada curva eu pensava que ia vomitar o crepe de Nutella ou que ia desmaiar. Fui forte, mas a sensação foi horrível.

Famílias chilenas

Uma coisa interessante que eu vi na volta foram as famílias chilenas. Eles não sobem nas estações. Eles sobem até onde tem neve suficiente pra se divertir e param os carros ali. Há churrasqueiras e mesas. Enquanto os adultos ficam conversando as crianças fazem bonecos de neve, deslizam no gelo, fazem guerrinha de bola de neve e até aqueles “anjinhos” no chão. Se você está só pela neve fica a dica: conheça uma família chilena. Você se diverte sem gastar quase nada.

Tocou MUITO no iPod: No Ceiling - Eddie Vedder (Em memória de Christopher McCandles, minha inspiração pra essa viagem)

"Tão certo quanto estou respirando
Tão certo quanto estou triste
Manterei essa sabedoria na minha carneio daqui acreditando em mais do que antes
Esse amor não tem limites"