Tudo começou quando emiti a minha opinião sobre o que estava
acontecendo na USP. Fui irônico, fazendo uma analogia com o movimento
estudantil de Santiago, que presenciei ao vivo e considerei incrível. De
repente, pessoas que são contrárias à minha opinião rebatem, de um jeito “forte”.
Fui chamado de desinformado, de hipócrita, de alienado, de arrogante, pseudo-intelectual
e coisas piores, que não cabe citar aqui (meu último post já foi bem
bagaceiro). Graças a Deus eu cresci e isso não me abala mais – como abalava
antigamente, quando não fugia de uma briga e tinha um arsenal de xingamentos.
Mesmo assim, fiquei surpreso. Não entendo como jovens que se dizem
“revolucionários” são tão intolerantes diante de uma opinião contrária. É
impressionante o radicalismo de alguns, a mente fechada pro diálogo e o apego a
conceitos pré-existente (conceitos mudam, bebê).
Começo esclarecendo meu posicionamento sobre os fatos da
USP. Não concordo. Aposto que já tem gente revoltadinha, ofendendo cinco
gerações da minha família. Antes disso, me leia. Ou não, xinga se quiser,
pessoas com esse comportamento não fazem diferença.
EU NÃO ESTOU DO LADO DE NINGUÉM!
Maldita mania de polarizar as coisas... A guerra Fria já
acabou faz tempo!
Claro que eu sei que tem muita gente séria nessa
manifestação, com propostas realmente boas, que só visam o crescimento da USP e
a volta da democracia lá (um regime autoritário está maculando uma das melhores faculdades do país, absurdo!).
Mas o negócio perdeu o controle, virou bagunça. Grande parte dos manifestantes
não está nem aí pra esses termos mais sérios. Muitos aproveitaram o embalo pra promover a anarquia. Alguns querem
fumar o seu baseado em paz e SÓ ISSO.
Não adianta fazer essa cara e dizer que eu não sei nada, que sou controlado
pela imprensa e blábláblá.
Uma pergunta: Se a polícia estava incomodando tanto, como
acredito que estivesse, porque as manifestações só ocorreram após 3
“estudantes” serem pegos com maconha? Porque há gritos e cartazes sobre isso
tomando conta do manifesto? Um manifesto sério não admitiria isso. Não mesmo.
Um manifesto organizado ia evitar que a luta fosse pra esse lado ou que esse
lado existisse. Porque não posso considerar séria a reivindicação da saída da
polícia para um fumo sossegado. Não mesmo.
Ahh, agora você me chama de careta e moralista. Meu amiguinho,
deixa eu te contar uma história. O Fabinho aqui, apesar dessa cara de guri de
apartamento, foi criado com a favela, cresceu no meio dela e sabe tudo sobre o
mundo das drogas. Esses olhos aqui já viram muito filhinho de papai subindo
morro e dando dinheiro pra traficante. Pior, nem pra traficante eles davam, porque
a maioria é “cagão”. Eles dão o dinheiro pra crianças (o “avião”) e as mesmas
trazem as drogas. Nossa, como eu vi criança começando no tráfico por incentivo
de playboy. Vi, e não foram poucas. Crianças que tinham uma esperança, mas que
eram corrompidas pelo dinheiro fácil que conseguiam . Pior era saber que muitas
morreram pouco depois. Eu vi. Ninguém contou. Portanto, eu sei que o mal que um
baseadinho causa à sociedade. Isso me
indigna, me faz odiar essa hipocrisia, muito antes de Tropa de Elite ou
qualquer outra coisa... Isso também me
faz ser a favor da descriminalização das drogas. Curto os manifestos dessa causa e odeio
quando a polícia abusa do poder para acabar com eles. Só não confunda esses manifestos com os que
estão ocorrendo na USP. A luta de alguns não é pela descriminalização, é pelo
uso de drogas sem vigilância.
Aí você diz que isso é balela, que é o que a mídia quer que
eu acredite. Ok. Talvez você esteja certo (viu como é legal ser aberto ao
diálogo?). Vou ler tudo que você mandar, todas as mídias alternativas que você
indicar, os depoimentos que tiver. Vou ler tudo, porque eu acredito que quanto
mais informações, mais clara fica a sua visão. Mas também vou ouvir a “grande
mídia” e isso não significa que eu
acredite nela. Significa que eu estou analisando os fatos, já que eu estou
longe – como TODOS que vieram descontar sua raiva juvenil em mim. Também é
legal eu dizer que estudo comunicação, sei da podridão desse sistema, de como
há manipulação de informação. Mas aí eu trago a novidade: Não existe informação
100% verdadeira. Porque informação é
transmitida por pessoas, não por robôs. O que me garante que um depoimento
postado em um site independente não contém mentiras? O que?
E, vamos desenhar
novamente, não pense que eu estou afirmando que essas informações são
mentirosas. Não mesmo. Só estou afirmando que a mentira, a manipulação, pode
vir de QUALQUER lugar. Por isso é importante confrontar, debater, ir atrás.
A vivência ou a pesquisa não torna ninguém melhor, torna
apenas mais preparado para a discussão. Não sou arrogante, nem dono da razão. Sigo
as minhas crenças, interpreto a informação de acordo com a minha cultura, os
meus ideais. Mas posso estar equivocado. Vou entender se estiver. Só não vai
ser um piá revoltadinho que vai me convencer. Não vai ser alguém que agride
quem opina diferente que vai ter crédito que vai me abrir os olhos. Quem perde
a razão perde o direito de argumentar, por melhor que seus argumentos sejam.
Acho que devo expor o que acho da polícia, antes que alguém
me acuse de fascista e de defensor dos policiais. Mais uma vez apelo pra minha
experiência de vida. Vou citar apenas duas experiências, as piores que tive: Há
8 anos atrás, meu amigo (que é negro) e eu
fomos parados pela policia só porque olhamos pra eles. Só por isso. Levamos
tapas, fomos moralmente humilhados. Recentemente apanhei feio no jogo Grêmio x Cruzeiro
pela Libertadores de 2009. Vi mulheres apanhando, crianças chorando por causa
do gás de pimenta e idosos apavorados. Ou seja, eu sei como a polícia é
truculenta e abusa do poder quando quer . Por isso, você NUNCA vai me ver defendendo
esse tipo de ação policial, achando os caras uns heróis. Também não crio estereótipos, existem bons
policiais, apesar de isso ser cada vez mais raro.
Mas sabe o que é
engraçado? A polícia bate e agride TODOS os dias os jovens da periferia. Você vê alguém indignado com isso? Mas claro,
quando um filhinho de papai apanha, é um absurdo. E, novamente apelo pro
desenho para não ser mal interpretado: não estou incentivando a violência, dizendo que “agora os
playboys vão ver o que é bom”. Nem pense nisso. Só acho que isso é um problema
que existe há anos, quase cultural e tem muita gente ali no meio que acha até
legal ver pobre apanhando – quantas vezes eu já ouvi a frase “tem que
bater em favelado”.
Pra finalizar, quem critica e não apresenta soluções é um
idiota. Não vou ser. Também não vou apresentar a solução infalível. Vou só dar
a MINHA opinião.
Penso que os estudantes sérios devem se organizar, mostrar
à sociedade que eles querem mudanças IMPORTANTES e que suas causas têm
fundamentos. Se afastem dos babacas que sujam o movimento. Ganhem o apoio da
sociedade, pois não existe revolução sem ela. Não existe!
Novamente resgato o exemplo de Santiago. Lá a sociedade
apoiava os estudantes. Vi vários manifestos onde os adultos aplaudiam os jovens
que passavam (muitos faziam maratonas, com camisas e bandeiras, afim de
espalhar sua ideia pelas ruas – e dava certo). Lá também têm babacas. Nunca
falei que não tinha. Mas eles são minoria, algo tão insignificante que suas
atitudes são abafadas pelos revolucionários de verdade. Lá os jovens usam a
mídia inteligentemente, invés de simplesmente atacarem (há críticas, mas não
críticas cegas). Chamam coletivas e esclarecem qualquer mal entendido e recriminam
qualquer pessoa que passa do limite. A mídia dá espaço porque a sociedade exige
isso. É organizado, por isso elogiei o que vi lá. Reconheço que usei a frase
errada, poderia ter sido mais claro, menos superficial. O que me indigna é que
quem foi contra não tentou me entender, simplesmente atacou.
Eu penso que o radicalismo não muda o mundo, não muda nada.
O radicalismo fortalece a animosidade, a teimosia. É o freio do mundo. Uma
pessoa que é contra um sistema autoritário (como a reitoria da USP) e se
posiciona radicalmente, não significa nada. Ela só representa outro sistema,
outro tipo de autoritarismo. Eu acredito em revoluções que dão espaço para o
diálogo, para o debate, pois é o confronto de ideias que nos faz crescer, nos
faz abrir a mente e encontrar uma solução que é boa para a maioria. Quando isso
não acontece, não é revolução, é só bagunça.
Vamos crescer, vamos aprender a discutir ideias sem ativar o
CAPS LOCK o tempo todo e achar tudo que o outro fala “um monte de besteira”. Vamos entender que debater é muito mais importante
do que estar certo.
Obs.: É bom deixar claro. Só estou me posicionando, não
estou dizendo que tenho razão. Se vai me atacar, fique à vontade, mas já
adianto: não vou responder. Estou aqui pra debater, não para disputar beleza.
Obs.2: Fumar maconha
é crime. Achar que a prisão de três caras que usavam maconha um absurdo é no
mínimo ridículo. Achar que houve abuso de autoridade, não é.