quarta-feira, 21 de dezembro de 2011

Feito para confundir

No começo de 2011, comprei o livro “O Guia Politicamente Incorreto da História do Brasil”, do jornalista Leandro Narloch. Descobri o livro através de uma matéria da Super Interessante, que destacava a “nova história do Brasil”. Fiquei intrigado com algumas revelações que a revista fez e, principalmente, a promessa de que havia muito mais no tal livro. Infelizmente não tinha dinheiro na época e deixei a leitura pra depois, até esquecer. Aí o livro estourou. Ganhou até uma nova edição, mais atualizada (então agradeci por ter esperado pra comprar).  Naturalmente a curiosidade voltou e decidi comprar o livro ao vê-lo destacado na livraria, por um preço tão acessível (se não me engano, paguei R$29,90). Só fui ler agora, no fim do ano, pois os estudos (e as séries) tomaram conta do meu tempo durante esses 12 meses. Não li antes porque julguei que essa leitura deveria ser feita com calma, com a minha total atenção. Não estava errado.
Promessa
O livro começa prometendo que “não quer ser um falso estudo acadêmico, (...) e sim uma provocação. Uma pequena coletânea de pesquisas históricas serias,irritantes e desagradáveis, escolhidas com o objetivo de enfurecer um bom número de cidadãos.” (NARLOCH, 2011, p. 27). Essa ousadia me encantou, aliás, a introdução despertou em mim um sentimento que estava esquecido: a minha indignação com a história que aprendemos no colégio.
Explico. Eu era muito bom em história. Mas bom mesmo. Geralmente a prova tinha 15 questões. Minha média de acertos era 13, 12. E eu quase nunca estudava. No começo eu festejei. Com o tempo comecei a achar estranho. Tudo parecia seguir uma mesma linha. Todas revoluções tinham um padrão. Quando você percebia esse padrão, logo as coisas ficavam claras e fáceis de assimilar. Foi assim que eu me tornei bom em história, através da lógica. Sempre suspeitei que isso não estava certo.
O Guia surge com a missão de desmistificar heróis, destroçar crenças e dar um tapa na cara da nossa cultura. A escrita do autor é muito boa, isso facilita a leitura e certamente deve atrair muitos jovens, principalmente os que não engolem as mentiras contadas no Ensino Médio. Quase sempre o texto contém uma ironia, que provoca e, às vezes, indigna (pelo menos eu me indignei). O conteúdo basicamente gira em torno de “novas” descobertas dos historiadores. Pesquisas que comprovam que muitas verdades que aprendemos, foram criadas para favorecer um pensamento ideológico de uma época. Criar personagens íntegros e revoluções fantásticas (e dramáticas) era um jeito de motivar a população.
Leandro, ao meu ver, faz uma boa pesquisa. Desenterra fatos esquecidos, que ganhariam pouco destaque se não fossem traduzidos para uma linguagem, digamos, mais popular. Ele é o porta-voz desses historiadores, divulgando suas pesquisas e contrastando elas com o que era dito. No entanto, acho que ele peca ao tentar ser MUITO polêmico. Em alguns momentos suas provocações passam dos limites, chegando ao nível do desrespeito. Um exemplo é o que ele fala do Acre (leia o livro e você entenderá, eu não vou contar). Também não gosto quando ele caí na pior falácia que existe: a generalização apressada. Quando fala dos índios, por exemplo, a impressão é que o que é dito é sobre TODAS as tribos. Não notei um cuidado, nem uma preocupação de deixar claro que o que era dito, era sobre um grupo e não sobre uma cultura inteira.
Mas, na minha opinião, o maior erro dele é o posicionamento. O cara não faz questão de esconder que é da direita. Aliás, o seu estilo de texto lembra o da Veja e, olha que curioso, ele já foi repórter da revista. Se os antigos historiadores pecavam ao contar histórias contendo ideologias pessoais, não consigo acreditar que Guia não faz o mesmo. Inclusive a última frase do livro é “Viva o Brasil capitalista” (NARLOCH, 2011, p 336).
Mesmo com esses deslizes, considero a leitura do livro obrigatória pra quem gostaria de se aproximar da verdade. Eu acho difícil um dia chegarmos à verdade pura. Porque em um fato, existem milhões de verdade. Se eu for relatar o governo Lula, minha história vai ser uma, a de um crítico vai ser outra, a de um partidário vai ser completamente diferente e assim vai. A história SEMPRE será duvidosa, pois ela é contada por seres humanos, que raramente são imparciais.
Se Leandro não é 100% confiável, isso não significa que o que ele diz é 100% mentira. Bem pelo contrário. Muita coisa tem lógica e boas referências históricas Ele traz uma discussão, um debate que PRECISAMOS fazer. Seu livro não é feito para esclarecer, é feito para trazer a dúvida. É absurdo pensar que a leitura dele nos tornará pessoas esclarecidas. Não mesmo. Apenas deixaremos de ser vítimas de uma história cheia de mitos.