domingo, 25 de março de 2012

O Cotidiano Assassino



O Cotidiano pode matar uma pessoa. É, ele pode.

Isso acontece que acordamos todos os dias com o mesmo toque, no mesmo horário, do mesmo jeito. Comemos apressados, as mesmas coisas de sempre, preocupados com o horário do ônibus que quase 
sempre perdemos.  

Corremos...

Todos os dias corremos  e nem entendemos o porquê.  Atravessamos a rua sem medo dos carros porque queremos ganhar segundos que não vão fazer diferença alguma na nossa vida. Não podemos esperar, não sabemos esperar.

Aí nos deparamos com aquele ônibus que quase todos os dias está cheio, exaltando o mesmo bafo quente, o mesmo cheiro esquisito. Somos amassados da mesma forma por diferentes pessoas (nesse caso a variação não afeta em nada o Cotidiano, ele até ri disso). A dignidade acaba quando a porta do ônibus abre. A partir daí é uma luta individual por um lugar menos ruim. Tentamos vencer,  pegamos nossos fones de ouvido, que servem para escaparmos dali. Ouvimos quase sempre as mesmas músicas que de certa forma nos animam.

Tentamos fugir. Todos que vivem esse mundo tentam. Fugimos  até de nós e dos nossos pensamentos. Alguns desistem no caminho, e só se limitam a respirar.

É engraçado, pois é nesse momento que o Cotidianos começa a nos matar. Ele nos sufoca através do que somos. Do que achamos que somos. Nesse contexto, procuramos explicações, procuramos entender porque estamos ali, passando aquela dificuldade. E temos tempo, já que todos os dias o trânsito se mexe devagar, aumentando o tempo da nossa viagem consideravelmente.

Nos enxergamos nessa hora? Não, enxergamos o que queremos enxergar. Enxergamos o cansaço dos dias difíceis, a dor do nosso isolamento involuntário, a tristeza por estarmos andando em círculo, a raiva por não sairmos dali. Questionamos a nossa existência ou admitimos o nosso fracasso. Tanto faz. O olhar é o mesmo.

Com o tempo adquirimos esse olhar comum e sem graça. Ele é parado, fixo, morto e sem cor. Ele não diz nada, mas ao mesmo tempo diz tudo. Ele fala sobre cada um de nós, nossas experiências, frustrações e aspirações. Também nos coloca num lugar comum, no meio de uma multidão sem rosto.
Somos todos iguais em alguns momentos e tão diferentes em outros, principalmente quando nos olhamos. Por isso evitamos nos olhar, por isso lutamos para sentar no banco vago, por isso dizemos “com licença” como quem diz “saí da frente”.  Odiamos ver nosso rosto refletido e ele está em todos os lugares, pois compartilhamos a mesma aflição.

O dia continua, oferecendo variações que no fim dão no mesmo lugar: a frustração. E nós continuamos ali, odiando o Cotidiano, pensando em como acabar com ele, enquanto ele acaba conosco. Esquecemos que ele é criado por nós, pela nossa desistência ou pelo nosso medo de arriscar. Talvez seja cria dos nossos erros do passado, da nossa preguiça ao estudar ou de algum dia que hesitamos... Quem sabe? O fato é que ele existe e nos mata devagar, principalmente se esquecemos de lutar contra ele.

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