sábado, 31 de agosto de 2013

Peru - parte 2: Lima, a cidade cinza

Vou poupar vocês dos meus relatos sobre nervosismo, ansiedade e tédio da viagem.  Vale ressaltar que não existe voo direto do Brasil para Cusco, sempre vai ter uma parada em Lima – tanto que ela é a cidade mais visitada do país. Resolvi aproveitar essa conexão para conhecer a capital do Peru.
Apesar de não ser um destino muito comentado, Lima merece atenção, afinal, é uma capital Sul-Americana, é conhecida mundialmente pelas opções culinárias que oferece, pelos diversos museus, por sua arquitetura, pelo agitado mar do Oceano Pacífico...  Se você estiver afim de economizar, diria que um dia e meio em Lima é suficiente. Se você realmente quer explorar essa cidade e todas suas opções, creio que seriam necessários dois ou três.

O clima de Lima é peculiar. Lá não chove nunca, mas também não faz sol. O céu é nublado. Talvez isso afete o humor das pessoas. Nos dois dias que passei lá, achei uma cidade muito agitada e tensa. O trânsito é caótico! Na verdade, em todas cidades do Peru é. Eles não respeitam regras de preferencial e buzinam por TUDO. É impressionante como não rola batidas, pois eles são agressivos na direção e dirigem muito mal. Em Lima é pior. Tem mais táxis do que carros comuns e eles não são nada educados. JAMAIS pense que a faixa de segurança te protege. Eu fui atravessar a rua e um táxi ACELEROU pra cima de mim.
Óbvio que não posso definir um povo por uma atitude, mas minhas experiências em Lima não foram boas, como vou relatar abaixo. Algo que tem que ser levado em conta é a distância entre os bairros. Isso faz com que existam várias cidades em Lima, tanto que cada bairro tem uma “prefeitura”. Por exemplo, no Barranco e em Miraflores eu senti um clima mais acolhedor dos habitantes, se comparado ao estresse e mau humor do Centro.

Uma dica que dou é estudar bem as opções de Lima antes de ir, pois, como falei antes, é uma cidade ENORME e distante. A única cidade que não “estudei” foi Lima, e no fim das contas descobri que era a que eu mais precisava estudar. Faça um roteiro que inclua o Centro e Miraflores de dia e o Barranco à noite, isso é o básico a ser fazer lá. Pra se ambientar, leia algum livro de Mario Vargas Llosa, o escritor peruano vencedor do Nobel de Literatura. Ele descreve um pouco da rotina de Lima e das paisagens de lá.
A seguir, o relato do meu dia e meio em Lima.

Aeroporto
Uma coisa curiosa do aeroporto de Lima é como eles definem quem vai ou não pra esteira de bagagens. Você aperta um botão. Se ficar vermelho, sua mala vai tirar um raio-x. Se ficar verde, você passa direto. Adivinha se o meu não ficou vermelho?
Era um sinal. Logo descobriria que eu não teria muita sorte em Lima.

O táxi
Lembram-se das regras de segurança que falei no post anterior? Uma delas é reforçada com ênfase no aeroporto: cuidado com os táxis. Eu li tudo sobre isso. Eu me preparei para isso. Mas eu não escapei disso.
Por causa desse alerta, escolhi um hostel com transfer. O problema é que não encontrei o cara do transfer por lá.  A saída do aeroporto ilustra muito bem o que é o Peru: caos. Eu fiquei uns 20 minutos procurando placa com meu nome e nada. Até que fui “expulso” do salão (por um cara NADA educado do aeroporto). Continuei procurando e nada. Já era 1h da manhã e eu estava cansado, com duas mochilas. Eis que um taxista me oferece o serviço.

Aqui um parênteses: os táxis no Peru não têm taxímetro. Você combina o preço antes e seu dom de negociação é testado.

Ele estava identificado com o uniforme de uma das inúmeras companhias oficiais que existe no aeroporto e parecia confiável. Me cobrou 25 dólares a corrida até Miraflores, onde ficava o meu hostel, eu disse que só ia por USD 20. Ele aceitou.

Foi aí que começou meu pesadelo.

No início, o taxista me falou sobre Lima, me falou sobre os prédios históricos do Centro (um dos mais bonitos que já vi) e me dava dicas de onde ir. Até que ele percebeu que de fato eu estava sozinho (idiotice minha deixar isso transparente, mas ele realmente parecia confiável) e o papo mudou. Do nada ele começou a falar da violência da cidade. Eu dizia que era do Brasil, que isso não me assustava.  Mesmo assim ele insistia, até me mostrava as páginas policiais de um jornal.

O negócio ficou tenso quando eu percebi que estava demorando demais para chegar em Miraflores, um dos lugares mais bonitos e seguros do Peru. Até que ele me mostra uma placa de onde estamos: San Juan de Miraflores, outro bairro. Ele me tirou pra turista burro e desinformado, querendo que eu acreditasse que ali era Miraflores.

Esse bairro é na periferia de Lima e não é NADA recomendado para turistas. Eu estava numa favela. Então ele começou a descer do táxis, me deixando sozinho, sob alegação que ia pedir informações sobre a rua que eu tinha indicado. Eu sabia que era mentira, eu sabia que estava no lugar errado. Foi um momento de muita tensão, pois eu não sabia o que ele faria comigo – e li relatos bem pesado das ações dos taxistas clandestinos de Lima.

O papo de insegurança aumentava, soando como uma ameaça, já que ele se dizia inseguro e alegava que só poderia me deixar “perto” do hostel, pois na região que ficava poderiam roubar o carro dele. Ou seja, ele estava me dando o seguinte recado: vou te deixar aqui. Claro que uma proposta surgiria e foi assim: “te levo pra um lugar seguro, mas a diária lá é USD50. Aí eu pergunto, o que eu ia fazer? Já era 2h, eu estava num lugar desconhecido com um cara mentiroso que me ameaçava com notícias de jornal e repetia sem parar “Você é que sabe”.

 Decidi que iria pro tal hotel e no outro dia iria pro hostel. Ilusão. Ao chegar ao hotel, que na verdade era um motel, o cara disse que eu só ficaria se pagasse dois dias adiantado. Era tipo, ou faz isso ou se fode.  E logo descobri uma das coisas irritantes no Peru: você cruza com muito explorador de turista.
O taxista certamente tinha um acordo com o dono do motel, tanto que no outro dia pedi para chamarem um táxi e quem aparece? O mesmo taxista.

Não gosto muito de falar sobre isso, foi uma experiência ruim, talvez a pior da minha vida, pois não sabia o que esperar. Não consegui dormir de raiva por ter pegado aquele táxi na pressa e por achar que poderiam invadir meu quarto a qualquer momento. Mas acho importante o relato para reforçar o alerta: cuidado com os táxis em Lima.

Centro

Ignorando a experiência ruim, tentei conhecer Lima, mesmo chateado com tudo o que aconteceu na chegada. Não é difícil perceber que é  uma cidade bem bonita. Como disse antes, o Centro é um dos mais bonitos que já vi. Os prédios históricos são bem cuidados e há uma harmonia entre eles – a arquitetura espanhola se destaca com sua riqueza de detalhes.

A Praça de Armas, algo presente em TODAS cidades que eu fui (até na mais distante), é bem bonita, com destaque para a sede do governo e para a imensa catedral.

Há diversos casarões para se visitar, eu preferi ver de fora. Eles indicam que pessoas muito ricas moraram em Lima no passado e fica a impressão que a cidade era bem importante para a Espanha, devido às grandiosas construções.

Mesmo que você não seja católico ou religioso, minha sugestão é que visite o convento São Francisco. O lugar tem várias atrações, como uma biblioteca do século XVII, uma sala de orações fantástica e catacumbas com ossos de limenhos do passado. O lugar fala muito sobre Lima, principalmente da “colonização” da Igreja em um país que era pagão.

Outro ponto legal é a estátua de São Martin, o libertador do Peru. Aliás, há muitas praças no Centro, todas rende belas fotos! 

O melhor jeito de explorar o Centro é andando, se perdendo mesmo.

Miraflores

Seguro, rico, cheio de vida e de expressão artística, com uma bela vista do Oceano Pacífico, Miraflores é o bairro mais legal de Lima e o que mais tem a oferecer ao turista. Era lá que eu deveria ter ficado (sinto raiva só de pensar)!

O Parque do Amor é sensacional, com um muro de mosaico com diversas declarações de amor. Dizem que é tradição os casais terem o primeiro encontro lá, mas não sei se é verdade. Nessa parte é possível ver o rochedo de Miraflores e a bela vista para o mar.

Também vale destacar o Parque Kennedy, um lugar verde, calmo e repleto de manifestações artísticas. É um dos melhores jeitos de conhecer o lado bom da cidade!

Miraflores tem uma paz que é rara em Lima, e eu ainda tive que fingir que acreditava que era um bairro perigoso...

Barranco

Repleto de casarões e conhecido por seus bares e casas noturnas, o Barranco é uma boa opção para o fim de tarde e noite. Ali tem um lugar bem famoso, a Ponte dos Suspiros. Diz a lenda que se você passa pela ponte segurando a respiração e faz um pedido, ele é realizado. Eu tentei a sorte. Meu pedido? Chegar logo em Cusco. Lá também tem uma biblioteca, que não achei nada demais, e o museu da eletricidade, que como grande destaque tem um bonde!

Chorrillos

Não tão famoso, Chorrilhos é uma grata surpresa. É um bairro (ou seria outra cidade?) distante, mas com belas paisagens praianas e bons restaurantes de frutos do mar. Foi lá que comi o famoso ceviche, que consiste em peixe cru com limão e                 pimenta. É um prato nacional! Eu não achei ruim, só tive dificuldade de me acostumar com a “textura” do negócio, afinal, é um peixe CRU!  Vale a pena experimentar.

Inca Cola e Cusqueña

Se Lima for seu primeiro destino no Peru, você precisa tomar Inca Kola e Cusqueña nas refeições. A Inca Kola é tão popular no país que a Coca Cola teve que compra-la, pois não vendia nada por lá. O refrigerante amarelo tem gosto de chiclete e é uma delícia!

A cerveja mais popular do Peru é a Cusqueña. Eu gostei muito, mas vários brasileiros que conheci ao longo da viagem não curtiram tanto. Tentei tomar em Lima, já que dizem que não é bom beber na altitude (bebi uma em Cusco e vi o mundo girar).

Vale a pena parar em Lima?

Vale sim. Lima não me traz boas lembranças, mas é impossível dizer que é uma cidade ruim. O erro foi meu em não ter um plano C caso o transfer falhasse (o plano B era ligar, mas o telefone resolveu não ajudar). Se por acaso acontecer exatamente a mesma coisa com você, aconselho a ir nos guichês das companhias de táxis no aeroporto. 

Meu maior objetivo na viagem não era Lima, estava curioso pra ver um pedacinho dela. Me chateou o que aconteceu, mas fiquei feliz de saber que tinha coisas melhores pela frente. Minha ansiedade se misturou com minha raiva e medo e resolvi ir para o aeroporto com 5 horas de antecedência. 

Esperava que Cusco fosse mais receptiva e que me trouxesse coisas boas.

E trouxe, como vou contar no próximo post!

O Oceano Pacífico

A Praça de Armas

Monumento de San Martin

Palácio da Justíça

Ponte dos Suspiros

Barranco

Rochedo de Miraflores

Parque do Amor e seus mosaicos com mensagens

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