domingo, 20 de outubro de 2013

Peru - parte 5: O grande dia

O trem balançava suavemente, colocando a maioria dos passageiros pra dormir. Eu não. Eu estava ansioso demais para isso. Também não me perdoaria se dormisse. Era dia e a paisagem era convidativa pra eu perder tempo dormindo. Aliás, se você for de trem, tente ir de dia. 

Já era noite quando cheguei em Águas Calientes, fui recebido pelo cara do hostel com uma placa escrito “Christofer Flávio”. Não esperava nada do pequeno município que serve de base para quem sobe a Machu Picchu. Tive uma grata surpresa.  A cidade é “inclinada”, pequena e convidativa. Suas ruelas são repletas de painéis elétricos, com restaurantes para todos os gostos  (com uma certa predominância de comida mexicana e chinesa). O hostel que fiquei era surpreendentemente bonito parecia um hotel – aliás, fui levado pro hostel errado, mas como foi um erro deles, acabei ficando nesse mais “luxuoso”.

Estava indo tudo bem até que começou a cair uns pingos. No começo era suave, depois foi se intensificando. Não percebi que era uma tempestade, pois no meio da cidade há um rio de água corrente que faz um barulho parecido. Achei que o barulho era do rio até um cara entrar ensopado no hostel. Comecei a ficar desesperado.

O ponto mais alto da viagem estragado por chuva? E era A chuva. Perguntei para o menino da recepção se era permitido entrar em Machu Picchu com uma chuva daquelas. Ele disse que não. Olhei então a previsão do tempo em VÁRIOS sites. Todos indicavam tempestade. TODOS. Menos um, o Climatempo. Passei a andar de um lado por outro, esperando o guia que ia conversar comigo. Nada dele chegar, já estava duas horas atrasado. E eu sou ansioso demais para isso, cara. Quando ele chegou, nem esperei ele começar a me explicar, já sai perguntando: “se estiver chovendo assim vou poder ir lá?”. Ele disse que sim, e mais, disse que era normal chover daquele jeito à noite. Fiquei mais tranquilo.

Subir a Machu Picchu não era só o objetivo principal da viagem. Era um sonho de infância. Um sonho que ia ser concretizado no dia do aniversário da minha mãe. Só pensava em chegar lá por mim e por ela. Depois de conversar com ele me acalmei e sai pra dar uma volta da cidade. Comprei capa de chuva e alguns chocolates – comia muito chocolate pra ter energia. Fui dormir cedo, pois os ônibus começam a subir a montanha à 5h da manhã. 

Dormi pensando em tudo que passei para chegar ali.

O grande dia

Mal o despertador tocou e eu pulei da cama. Tudo estava pronto. Tomei um banho e fui correndo pro café da manhã. Mesmo sendo o lugar mais luxuoso que fiquei, o café da manhã era a mesma merda dos outros lugares. A mesma coisa! Aproveitei que esse não tinha “fiscalização” e comi 4 sanduíches. Conheci um casal do Sergipe, um pessoal mais velho que ficou assustado ao saber que estava sozinho – até hoje não entendo o susto.

Da cidadela partem ônibus para a montanha. Às 6 da manhã a fila era enorme. Você não espera muito, pois saem ônibus o tempo todo. Antes de subir segui o conselho da minha pequena amiga de Cusco, comprei tudo que achei que precisava lá na cidade. Levei apenas uma água, o que se mostrou um erro. Leve pelo menos duas.

A subida é bem estranha. Assustadora, dependendo do ângulo que se vê.  Eu já falei que peruanos dirigem mal, né? Os caras que te levam pra Machu Picchu não são diferentes. Numa estrada perigosa, cheia de curvas e apertada, eles aceleram MUITO e não são muito corteses com os colegas que estão do lado oposto  - no caso, descendo a montanha.

Ao desembarcar do ônibus, comecei a tremer. Tive um mal estar que hoje relaciono à ansiedade. Eu estava muito ansioso em chegar lá, explorar aquilo. Minha pequena amiga estava certa, tudo em Machu Picchu é caro. Até usar o banheiro é cobrado! Uma casquinha de sorvete sai por 10 reais! Mas eu não tava lá pra comer sorvete.

Meu guia disse pra eu esperar ele, que ele ia me indicar o caminho pra Huayna Picchu. O bastardo demorou 2 horas pra aparecer. E eu lá, comportadinho esperando. Quando o avistei – o que não é fácil devido à multidão que se aglomera na entrada. Ele disse que eu estava atrasado para subir Huayna Picchu, que tem limite de pessoas pra entrar e horário determinado pra abrir e fechar. Nem esperei ele terminar, saí correndo. Sim, minha primeira passagem pelo sítio de Machu Picchu foi correndo como um pivete que foge da polícia. E cara, não repita isso. É HORRÍVEL correr na altitude.  Durante a corrida você não sente nada, mas quando para... O seu coração dispara tanto que é possível ouvir a batida. E o ar parece sumir, é realmente difícil respirar. O corpo sente muito, parece que você correu uma maratona de dezenas de quilômetros.

Logo eu teria essa sensação MUITAS vezes, pois consegui  entrar em Huayna Picchu – aos 45  do 
segundo tempo.

Huayna Picchu

A caminhada começa tranquila, reta. Parece tão fácil. Mas aos poucos o terreno começa a ficar mais íngreme, começam a surgir as primeiras cordas de apoio e a respiração começa a falhar. Minha única garrafa de água se mostraria insuficiente para a subida – veja bem, só a subida. Os passos ficam mais pesado e a primeira parada é necessária. O problema da altitude é esse. Você não sente nada, se emociona e começa a se esforçar como se esforçaria no nível do mar, só que ela vem com tudo em pouco minutos cobrar o preço. É realmente necessário fazer tudo devagar. Só que eu não sei andar devagar. Tive que parar umas dez vezes ou mais, e realmente fiquei mal. Suado e exausto, eu comecei a pensar em como seria se eu tivesse um infarto ali. Não é exagero, meu coração tava disparado.

É preciso deixar o orgulho jovem de lado e ter sabedoria pra descansar. Não é uma corrida e você está lá para chegar ao topo, não para chegar primeiro. Minha estratégia era não cansar.

No meio do caminho encontrei um grupo de gaúchos, gremistas, que fiz amizade. Ter alguém pra conversar é bom, pois te distraí daquele esforço absurdo. Algumas partes exigem escalada outras exigem passar por pequenas cavernas (mas há caminhos alternativos para alguns casos). Eu escolhia os piores caminhos, pois queria o máximo da experiência.

Ao chegar no primeiro mirante, a vista que procurava: Machu Picchu distante. Uma visão pra eternidade, assim como o orgulho de chegar ao topo. De ter vencido a montanha. Há algo poético nas montanhas. Uma poesia que fala em desafio e conquista. Ver o mundo tão pequeno depois de um esforço nos dá uma sensação de grandiosidade. É como ser um deus do seu próprio destino. E assim me senti lá em cima.

A descida é mais tranquila, apesar de exigir cuidados. É fácil derrapar e você não está sozinho na trilha. Meus amigos gaúchos tomaram outro rumo e eu fiquei sozinho para explorar Machu Picchu.
Soneca e reflexão

Enquanto esperava meu guia de manhã cedo, fui rapidinho espiar a entrada de Machu Picchu. E cara, todo misticismo envolta do lugar tem justificativa. Aquele silêncio que senti em Ollantaytambo eu senti muito mais forte ali. A cadeia de montanhas e a floresta que rodeiam o sítio nos isolam do mundo externo, como se ali fosse um palco, algo para nos afastar do que vivemos no dia a dia.

Quando voltei de Huayna Picchu, estava morto. Achei um cantinho de grama e me atirei, colocando a mochila como travesseiro. E cochilei, tirando a soneca mais gostosa da minha vida!

E foi nesse momento que tudo começou a ficar mais lento. Eu vi que tudo que precisava naquele momento era aquele cantinho de grama e uma mochila pra apoiar minha cabeça. Nada mais. A vida era simples demais naquele momento, sem as exigências que faço diariamente. Eu estava ali e estava feliz. Estava sujo, cansado, com fome (muita fome), com sede e não pensava em reclamar. Muito pelo contrário, só queria agradecer!

Eu reclamo demais, e levo a sério coisas tão pequenas. Tantos conflitos que começam por exigências egoístas, ambições que não preenchem nada. Não digo que me transformei um novo homem naquela soneca reflexiva, mas dei os primeiros passos pra tentar uma mudança.

Muitas vezes confundimos liberdade com a ideia de “fazer o que quisermos”, quando na verdade,  grande parte das coisas que queremos está ligada à necessidade de provar alguma coisa a alguém. Ali eu descobri que liberdade está muito mais ligada àquilo que nos preenche, que faz com que nossa vida tenha sentido.

Me senti livre naquele momento. Me senti vivo, como poucas vezes na vida.

No próximo post, um pouco mais sobre Machu Picchu!


Paisagem do trem

Primeira vista do sonho realizado



Corri tudo isso aí, não recomendo correr.

Finalmente o topo da montanha!

A cadeia de montanhas pede silêncio e reflexão.

Machu Picchu pequeno lá no fundo.

Conquista!

Melhor soneca da vida...

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