terça-feira, 5 de novembro de 2013

Socorro! Tem alguém aí?


Nos últimos tempos tenho me sentido sozinho. Na verdade, volta e meia eu tenho essa sensação, mesmo rodeado de pessoas. Digamos que eu até tenha me acostumado com isso, apesar de ser bem difícil lidar com os pensamentos que tenho quando as crises se tornam mais profundas. Porém, atualmente percebi algo que me intrigou muito: não estou sozinho nessa. Nem estou acompanhado por poucos. Pior, são poucas as pessoas que não se sentem assim.
Talvez não seja tão evidente pra maioria. Talvez muita gente discorde de mim. O fato é que estou quase certo que a solidão é uma doença. Quiçá uma epidemia.

Faça um teste. Abra a página de um portal de notícias qualquer. Certamente vai ter um espaço destinado à solidão. E não estou falando de chats, já estamos na Era da Solidão 3.0. Em algum lugar desse site, vai ter algum famoso ou semi-famoso tirando foto de si mesmo, colocando uma legenda qualquer ou uma informação pouco relevante e isso de alguma maneira, sabe-se lá como, virou notícia.

Analisem comigo.

O primeiro ato de solidão acontece no momento da foto. Van Gogh era um cara solitário e uma das coisas que ele mais fazia era auto-retratos. O cara cortou a orelha, tentou se matar inúmeras vezes e vivia uma vida de amargura e decepções. Não acho errado uma pessoa tirar foto de si mesma vez que outra. Acho estranho quando isso se torna constante e quando ela publica essas fotos desesperadamente por aí. Vejo nisso uma tentativa melancólica de ganhar atenção. De ganhar aquele “like” que vai ser passageiro e insignificante. Quem sabe ganhe um elogio. Certamente vai rolar um breve sorriso, que dura menos que o olhar que a pessoa teve ao passar pela foto freneticamente.
Aí temos o segundo ato de solidão, protagonizado pelos “curtidores”. Pessoas famosas têm fãs apaixonados, que sabem tudo sobre a vida delas, mas que no fundo não sabem nada sobre elas. Não é por acaso que muitos famosos são depressivos. Elas são rodeadas de pessoas que enxergam um ídolo, não um ser humano. Fãs que preenchem o vazio de suas vidas com gritos, faixas e declarações de amor a alguém distante e intocável. Um amor unilateral e quase sempre,  egoísta.  

O terceiro ato de solidão acontece na valorização dessa ação. Cada vez mais a imprensa destaca esse tipo de coisa como se fosse notícia. “Fulana exibe boa forma ao dar bom dia no Instagram”. Quem nunca leu uma notícia idiota dessa? Isso acarreta no elemento mais perigoso e talvez o maior responsável pela epidemia solitária que vivemos: a idealização.

O ideal de vida sempre fez parte da sociedade. Só que vivemos um tempo onde somos cada vez mais bombardeados por ele. E por vários ideais. Tenha um corpo perfeito. Faça sexo. Beba muito. Não fique em casa sábado. Ganhe dinheiro. Vista-se bem. Diga isso. Diga aquilo. Viva de tal maneira.  No fim, fazemos muitas coisas que nem estamos afim de fazer. Somos pessoas distantes do que realmente somos ou que queremos ser.

Nisso surgem as redes sociais, que se configuram nos nossos próprios portais de notícias. São nesses espaços que a situação acima se reproduz. Ao invés de fãs, temos amigos virtuais que nos conhecem ainda menos. E queremos a atenção desses caras, queremos números que nos façam nos sentir queridos. Assim vivemos cada vez menos para nós, pois sentimos uma necessidade absurda de mostrar algo para os outros.  

E a solidão se instala de um jeito sutil, quieto e perigoso. Dá pra dizer que ela é cultural e acompanha atitudes cada vez mais comuns, como aquela foto que precisamos tirar no bar para publicar; aquela viagem interrompida a todo instante para um post no Instagram; aquela conversa online no meio de uma festa; aquele olhar fixo na tela que perde várias e várias coisas que estão acontecendo ao nosso redor. 

Tenho medo do futuro, de um tempo onde estaremos tão desesperados em fugir da solidão que cada vez mais vamos propagar sua existência. Um tempo onde finalmente vamos ser sinceros, pedir socorro, mas ninguém vai prestar atenção, pois todos estarão preocupados em achar a sua salvação.

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