segunda-feira, 30 de dezembro de 2013

Peru - parte 7 : O lago sagrado dos Incas



Segundo a lenda, Manco Capac (o primeiro Inca) e Mama Ocllo, emergiram do Titicaca e a partir da Ilha do Sol, conduziram seu povo para Cusco, que seria a capital do império.  Esse cenário místico seria suficiente para me levar até lá, mas, além disso, o Titicaca é o lago navegável mais alto do mundo! 

Com tantos motivos, parti de Cusco para minha primeira viagem nas estradas peruanas, apenas com uma pequena mochila. Antes de continuar o relato, quero compartilhar algumas informações importantes sobre “andar de ônibus no Peru” – talvez eu repita algo que disse antes, mas é BEM importante.

1 – É extremamente barato.  Você paga muito pouco pra andar em ônibus luxuosos.

2 – As estradas são boas entre as cidades principais, mas em TODAS rodoviárias há aviso sobre furtos de bagagem, por isso, volto a recomendar: opte pelas melhores companhias: Cruz del Sur é a melhor – um conforto e serviço que NUNCA vi no Brasil, melhor que muita cia aérea. É a mais cara comparada às outras, mas nem é tão cara assim (paguei 30 reais a passagem mais cara em uma viagem de 8 horas). Compre com antecedência e não vai ter problema.

3 – As rodoviárias são agitadas, com MUITAS companhias que passam o tempo todo gritando, como se fosse uma feira. Você vai se divertir com isso no começo, mas depois irrita um pouco. Todas cobram uma taxa de uso de terminal, que varia entre 1 e 2 soles.

Pronto, basicamente é isso.

A viagem é longa entre Cusco e Puno, aproveite isso pra conhecer o país na sua essência – para isso, vá de dia, vale pela vistas e pelos povoados que o ônibus eventualmente para. No começo, mais uma vez fiquei bobo com as paisagens, não enjoava das montanhas, lagos e animais selvagens. Como fui na época da seca,  cenário era desértico, mas nem por isso feio – porém, acho que lá por maio e junho deve ser bem mais bonito.

Mas nem só de beleza vive o Peru, e o contraste disso é percebido nos primeiros vilarejos que aparecem. Muita, muita, mas muita pobreza. Apesar de eu ter sido criado entre vilas pobres em Porto Alegre, nunca vi nada parecido, pois eram cidades inteiras miseráveis. O choque cultural é inevitável.
A simplicidade e felicidade dos peruanos é impressionante, assim como sua força de vontade. É um povo que lembra muito o brasileiro, inclusive na “malandragem” (que chega irritar em certos momentos). A diferença é que o peruano é nacionalista ao extremo. Sinceramente, não sei se isso é um ponto positivo ou negativo, mas não acho justo julgar isso, pois fui um mero visitante.

Puno
Chegando a Puno um novo choque. Eu sabia que a cidade não era bonita, porque ninguém diz que ela é bonita, muito pelo contrário. Mas, sinceramente, nunca imaginei que ela fosse tão desprovida de beleza. Pense em uma vila com casas de tijolo à vista e sem acabamento, agora multiplique isso por 100. Assim é Puno. 

Lá fiquei num hotel curioso, porque só vi um funcionário: o dono. E é curioso porque era um hotel grande e até ajeitadinho. Eu passei na recepção em diferentes horários e ele estava ali em todos!
Novamente não tive problema algum com a altitude e resolvi buscar algum atrativo na cidade. Superficialmente, dá pra dizer que fora o Titicaca, Puno não tem nada, exceto uma Catedral e uma praça bonitinha pra se ver. Porém, aí depende muito da sua boa vontade, há mais coisas pra se fazer em Puno sim. O grande destaque desse lugar é a cultura. Tanto que ela é conhecida como a capital do folclore peruano.  

Em Puno, as pessoas são muito simpáticas e há uma boa variedade de restaurantes bons e baratos. 

Aliás, se quiser experimentar as coisas mais caras da culinária peruana, coma em Puno, que é muito mais barato. Por exemplo, foi lá  que comi uma pizza, talvez a melhor da minha vida, por menos de 8 reais! Sim, isso mesmo, mas tem que procurar, essa encontrei numa ruazinha que dá acesso à avenida principal – explore!

O frio em Puno é intenso quando caí a noite e minha boa vontade passou quando meus ossos começaram a tremer.  Acabei voltando pro hotel bem cedo e tive que lidar com o tédio. Escrevi um pouco, li mais sobre o lugar e entrei um pouco na internet. Dormi cedo torcendo pra que o Titicaca me trouxesse emoção.

Ilhas de Uros

É difícil lidar com o frio peruano. Porque ao mesmo que está frio, é ensolarado – e no inverno sempre vai estar ensolarado. Ao longo do dia vai esquentando, mas nunca o suficiente pra você sentir calor. Você até fica só de camiseta, só que nunca fica totalmente à vontade – a não ser que esteja caminhando mais rápido, mas aí vai estar arfando por causa da altitude.

O frio daquela manhã era intenso, ainda mais navegando no Titicaca. É incrível como ele é azul e incrível como ele não cansa a vista. Senti um orgulho de mim de ter chegado ali, em um lugar extremo do mundo.

As Ilhas de Uros geram muita controvérsia entre quem visita. Muita gente acha artificial, muita gente acha impressionante. Eu me coloco no meio desse debate. Há coisas extremamente forçadas, há coisas extremamente fascinantes. As ilhas não são mais habitadas pelos Uros, povoado lendário que se dizia anterior ao nascimento do Sol. Uma mistura de povos aconteceu e hoje os aimarás são maioria.

As ilhas são feitas com totora, uma planta aquática que além de “produzir” as ilhas, serve como alimento, lenha e artesanato. No passeio, que só pode ser feito em grupo, é feita toda uma explicação sobre o processo de construção das ilhas.

Os habitantes de Uros não escondem o contato com a civilização. Vestem roupas comuns misturadas com algo que produzem, o que acho perfeitamente normal. Por causa disso, muita gente desconfia que eles não moram ali. Acho isso uma exigência idiota de turistas recalcados que tem contato de uma ou duas horas com uma cultura e já querem impor regras. O que incomoda um pouco é o assédio dos habitantes, mas isso também é compreensível, é o que sustenta esse povo.

Uma coisa legal que eles oferecem é o carimbo da Ilha no passaporte (cobram um valor simbólico: 1 sóles) e compre algo deles, nem que seja um artesanato simples.

Taquile


Existem MUITAS ilhas no Titicaca. Cada uma com um povo diferente. Eu fui na Taquile, mas pesquise sobre as outras, que oferecem experiências bem diversificadas – você inclusive pode dormir na casa de famílias, o que deve ser demais! 

O povo de Taquile tem tradições únicas. Eles vivem apenas com o que produzem, vestem roupas do tempo colonial (de origem espanhola) que variam de acordo com o estado civil – cara, isso ia ser muito bom por aqui, e lá tudo funciona à base do cooperativismo. Todos se ajudam, não há ambição. 

Em Taquile existem apenas 3 regras: Não roubar, não ser preguiçoso e não ser mentiroso. Com isso eles convivem em paz e por muito tempo – são extremamente saudáveis, pois só consomem alimentos naturais.

Os moradores assediam menos. Eles demonstram sua cultura, através de dança, artesanato e culinária, mas não fazem cara feia se você diz não.  No fim dá gosto de contribuir.
É realmente um lugar interessante de se ver. A cidadela, que exige uma subidinha cansativa, tem o seu charme e uma vista bonita. De lá você parte para uma pequena trilha. Aproveite esse momento para respirar o ar puro e curtir tudo que a ilha oferece.

Puno novamente

Na viagem de barco, cerca de 2 horas, conheci um senhor uruguaio que morava na  Argentino, que tinha seus quase sessenta anos e estava viajando sozinho também. Ele e eu conversamos bastante sobre Buenos Aires, Mujica e mulheres brasileiras, uruguaias e argentinas.

Me despedi dele e segui para meu hotel do único funcionário. Mais uma vez o frio apertou, fui até o centro tentar curtir algo, mas só consegui jantar mesmo. Pela primeira vez senti falta do Brasil e a necessidade de entrar na internet. Fiz isso.

No outro dia conheci um casal brasileiro que estava no hotel. Ajudei eles em alguma coisa. Não sabia que eles estavam esperando o transfer para ir pra rodoviária, pegar o mesmo ônibus que eu rumo à Bolívia.

















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