sexta-feira, 10 de janeiro de 2014

Qual a pior violência que existe?



Sou viciado em rap desde adolescente. Muita gente diz que eu não tenho “cara de quem gosta de rap”. Bom, pode até ser, mas aposto que entendo muito mais de rap e da mensagem que o rap quer passar que muito cara que tem “cara de que gosta de rap” por aí.
A primeira coisa que entendo sobre os rappers é que eles são contadores de história. Histórias que muitas vezes são cruas, violentas e obscenas pra maioria das pessoas.  Ouvir o Tupac falar em tiros a todo instante,  Notorious B.I.G. detalhar um assassinato (Somebody's Gotta Die), o Nas descrever todas as armas e drogas que existem ou os Racionais dizendo que “periferia é periferia em qualquer lugar” não é o que a maioria das pessoas curte.

Eu sempre gostei.

Por que é normal uma pessoa gostar dos filmes do Tarantino e é estranho a pessoa gostar da violência relatada no rap? Uma vez lembro que perguntaram para o Tupac se ele se considerava um “gangsta rapper” ele respondeu que não, porque ninguém considerava o Marlon Brando um “gansta actor”. E a resposta mais correta pra essa questão.

A questão é que rappers relatam histórias que a sociedade esquece ou quer esquecer. Bons rappers tocam na ferida das pessoas e elas odeiam isso. É verdade que existe muito genérico por aí. Rap de má qualidade, onde a mensagem é muito superficial e o cara nem entende o motivo de estar falando aquilo (existe um vídeo épico do Jay-Z questionando um jovem rapper porque ele falava em armas e o garoto dizendo “porque é legal”). E é verdade que muita gente não gosta de rap simplesmente porque não curte o estilo musical.
Só acho estranho alguém criticar a violência do rap.

Parti deste ponto para questionar qual a pior violência que existe. Descobri que com certeza não são letras de rap. Aquilo só é o produto final de algo muito pior. Algo que está intrínseco na sociedade: a cultura.

O maior propagador dessa violência cultural é sem dúvida alguma os meios midiáticos. A mídia cria e impõe padrões e idealizações que inconscientemente nos fazem almejar um mundo inexistente. Minorias viram maiorias. Relacionamentos são desenhados de forma utópica. O materialismo ganha destaque de forma muito sutil. 

A ostentação de alguns clipes de funk e rap são tão diferentes da ostentação das novelas do Manoel Carlos? 

Sem perceber, você quer tudo aquilo. Você exige tudo aquilo. E sua vida vira algo sem um sentido prático, já que você quer coisas bem distantes da realidade. E isso nos torna cada vez mais infelizes. E cada vez mais violentos.

Não é uma violência explícita, é uma violência velada, que considero bem mais perigosa. Compramos  e distribuímos padrões de beleza, estereótipos e preconceitos. Falamos coisas ignorantes. Somos egoístas. Falamos em família mas não vivemos como famílias, pois acreditamos só no aparente e no que é dito. Não questionamos.

Nossa hipocrisia é muito violenta. Existe muito marido moralista que desfila com seu pinto em diversos puteiros da cidade. Existe muito racista lendo a Bíblia. Existe muita gente fofoqueira postando lições de amor na internet. Existe muito ignorante pedindo paz em passeata.

Tudo isso é invisível e se comentado parece menor que um “carrego uma 44 que estraçalha sua cabeça” (Life's a Bitch – Nas). Não é. Pelo menos não pra mim.

De nada adianta culpar o produto final da violência e se não conseguimos fazer a leitura necessária para dar fim a ela. Uma visão muito difícil de mudar, já que é mais fácil escolher os vilões de sempre e ignorar possíveis novos culpados.


Ei, Biggie, dê um exemplo do que acabei de falar...

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