quarta-feira, 12 de fevereiro de 2014

Peru - parte 9 : Condores e Arequipa



A Bolívia é o país mais pobre da América do Sul e um dos mais incríveis também. Fiquei só um dia lá e isso foi suficiente para querer voltar e explorar as outras opções que o país oferece, como o deserto de sal, La Paz, Potosí  e etc.  

Ao voltar pra Puno, encarei a parte mais chata da viagem: esperar 4 horas pelo ônibus que me levaria para Arequipa. Foi um teste de paciência e resistência. A rodoviária de Puno não tinha quase nada pra ver e as várias companhias de ônibus ficam disputando clientes aos gritos o tempo inteiro.  Um senhor ficava gritando o tempo todo “Arequipa, Arequipa, Arequipáááááááá”. No começo era divertido, mas depois eu confesso que já queria dar uma voadora nele. Foram 4 horas ouvindo gritos e olhando para o relógio. Tentei me distrair lendo um livro que eu já tinha lido 3 vezes. Ouvir música não rola quando eu estou esperando algo. Dei umas 10 voltas entre as lojinhas de artesanato e bares. 

E nada do tempo passar.

Quatro longas e tediosas horas depois eu fui para o ônibus. Meu primeiro Cruz del Sur. É impressionante como eles são cuidadosos. Você é revistado antes de entrar e um cara passa gravando rosto a rosto dos passageiros antes do ônibus partir. Os bancos são muito confortáveis e o serviço de bordo bate de longe muito avião que peguei na vida.

A viagem era longa, se não me engano 8 ou 9 horas. Foram 4 filmes em espanhol. Fiquei orgulhoso de ver o primeiro sem problema. O segundo também. No terceiro eu já tava cansado, mas ainda tentei acompanhar. Era um filme com o Rodrigo Santoro, “O Que Esperar Quando Você Está Esperando”. Sinceramente achei bem ruim, pois é aquele filme com mil histórias paralelas, sabe? 

Porém, foi esse filme que deu o ânimo que eu estava precisando.

Viajar sozinho é incrível, mas chega uma hora que cansa. Você tem que ter o dobro de disposição, o dobro de cuidado e o dobro de paciência. Eu confesso que já estava contando os dias para voltar, ao mesmo tempo que eu me culpava por isso, pois era a viagem da minha vida!

No fim deste filme ruim tocou a música “Home”, do Edward Sharpe and the Magnetic Zeros, que foi um remédio para o meu desânimo. Foram 4 horas de Copacabana a Puno, 4h de espera na rodoviária e mais 9h de Puno a Arequipa. Acho que eu tinha o direito de estar de saco cheio, né?

Eu só queria chegar em Arequipa, tomar banho e dormir. Mas quando chego lá tenho uma grata surpresa: era aniversário da cidade. A moça que me recepcionou era muito simpática e não parava de falar que eu tinha chegado bem na hora da festa. Demorou muito para acharmos um taxista disposto a nos levar ao centro, onde ficava meu hostel e onde estava sendo realizada a festa da cidade.

Eram muitas pessoas na rua e eu até tive vontade de participar, mas meu corpo estava acabado. Tomei banho e acompanhei um pouco da comemoração da varanda, conversei com alguns hóspedes do hostel e fui dormir, pois 7h eu tinha que estar de pé para ir para os Cânions.

Rumo aos Cânions

Mais um dia de viagem. Agora seriam 4 horas de Arequipa para Chivay. Um novo grupo, um novo guia, uma nova subida. Seria o ponto mais alto da viagem, por isso o guia recomendou comprar folhas de coca pra mastigar. Até então não tinha sentido a altitude, mas não quis arriscar. Além disso, queria mastigar a folha de coca para ter a experiência.

Vou admitir que não é nada agradável. O gosto é ruim e a boca fica formigando. Mas é uma coisa diferente, né?

O grupo que estava viajando comigo era o mais legal até então. Animados italianos, simpáticos venezuelanos, franceses que não tinham cara de bunda e duas brasileiras muito legais. O guia também era muito parceiro e tinha um conhecimento invejável. Pela primeira vez vi neve de perto nesta viagem e a paisagem repetia a beleza natural de outros lugares. Só que agora tinha vulcões!

Na estrada cruzamos uma reserva ecológica, onde Vicunhas, Alpacas e Lhamas vivem livremente. Às vezes cruzam a estrada, dando um susto nos turistas, seguido de um inevitável “óóóó”. Há algumas paradas para ver os animais e sentir o ponto mais alto da região. Mais uma vez a altitude não me atingiu.

Chivay é um vilarejo bem pobre, situado num vale entre as montanhas. Além de ficar perto dos cânions ele fica próximo a uma fonte de águas termais. Eu não tinha roupa de banho e não quis comprar pra ir às águas. Mas o guia deixou eu ir até o lugar e não me arrependi de ter ido.

Achei um canto onde eu pude sentar, sentir o ar frio das montanhas e ficar ali observando. Durante uma hora eu meditei. Eu senti algo diferente na vida, uma força que nunca me permiti olhar com calma: a força da natureza. Sério, parece papo de louco, mas eu curti muito aquele momento, aquela paz. Ficar ali vendo o sol se por.

Depois o guia e eu observávamos (e riamos) o pessoal voltar morrendo de frio e sem fôlego – por incrível que pareça os europeus optaram pela piscina mais barata que ficava escadaria abaixo. Voltaram sem ar de lá. Francamente, os caras ganham em EURO e por 5 soles passaram por isso...

De noite fomos a um restaurante simples que oferecia um show com música folclórica. Bem legal, mas bem aquelas coisas feitas para turistas que acabam me incomodando por não serem naturais.

O frio castigava e o hostel que eu fiquei era longe de tudo. O vilarejo não tinha nada, só uma praça onde até rolava uma comemoração, mas não valia o esforço.

No outro dia era dia de ver os condores.

Dia inesquecível

A ida para o Cânion del Colca tem várias paradas. Primeiro você para em um vilarejo chamado Yanque. Ali uma cena triste, às 6h crianças fazendo uma dança folclórica numa praça para turista tirar foto e dar contribuições. Achei uma puta exploração dos coitados. Ali vale a vista pra um vulcão que esqueci o nome e é bom pra comprar água e algum artesanato – não é caro e eles negociam bem. 

Depois paramos mais em um vilarejo, sem muito motivo. Nessas paradas sempre tem algum nativo com um falcão, uma lhama ou uma alpaca. Eu queria muito tirar foto, mas não sabia quanto que tinha que pagar. Não tem preço. Você tira foto e paga quanto quiser. Depois paramos em um mirante, com uma paisagem fantástica. Lá tinha duas nativas com uma alpaca e um falcão. Tirei foto com cada um e paguei um soles por cada foto. Valeu a pena!

O dia estava ensolarado, não muito frio. Os condores são a grande atração do belo cânion, mas nem sempre aparecem. É preciso ter sorte. Naquele dia eu estava. Vi oito! Alguns passaram muito perto de mim. A dança dos condores no ar é uma daquelas cenas que vai ficar eternamente na minha mente.

Agora é a hora da polêmica. Achei o cânion mais legal que Machu Picchu. Não se revolte. Machu Picchu é místico, é  impressionante, é tudo aquilo que falam. Mas o cânion me surpreendeu exatamente por não ter expectativa alguma sobre ele. É um lugar onde a natureza te pede respeito de uma forma intimidadora. Assim como Machu Picchu, existe toda uma aventura para se chegar lá. A diferença é que não há aquele clima de “modinha” entre os visitantes. 90% das pessoas que estão ali são mochileiros de verdade, pessoas que amam viajar, que pesquisaram sobre o país para chegar ali.

Vale muito a visita. Diria que é absurdo ir ao Peru e não ir ao Cânion del Colca.

Arequipa

Uma lenda diz que os incas chegaram ao local onde fica Arequipa e acamparam. Acharam o lugar tão bonito que pediram ao imperador pra ficar ali, que disse “Ari quipay’, que em quéchua significa “sim, fiquem”. Gosto de acreditar nessa história.

A região dos cânions é linda e selvagem. Vi cavalos correndo livre por lá, um inclusive quase foi atropelado depois de cruzar correndo a estrada. Mas os motoristas são bem atentos a isso. E há leis rígidas que punem atropelamento, já que é uma reserva ecológica.

Tive 3 horas pra conhecer Arequipa, a “Cidade Branca”. Ela é conhecida assim porque muitas construções foram feitas com pedras originárias da lava vulcânica. Aliás, a cidade sofreu muito com terremotos e em todo lugar há aviso sobre eles.

Foi uma das cidades que mais curti. Ela é uma Lima melhorada, com belas construções, menos caótica e com um povo MUITO mais simpático. Eu caminhei por duas horas, tirei boas fotos, mas senti que poderia ter explorado mais. Dá pra “perder” um dia lá.

O fim de tarde foi registrado numa foto, mas está bem vivo no meu pensamento. Era o fim da minha aventura entre as cidades do Peru. Eu iria viajar durante a madrugada para Cusco, onde teria mais um dia pra curtir e me despedir da viagem da minha vida.

Estava cansado, mas orgulhoso de mim.

Vicunhas ao fundo
Detalhe de uma igreja da Cidade Branca
Praça de Armas de Arequipa
Fim de tarde de um dia inesquecível
O ponto mais alto da viagem. Literalmente.
Crianças dançando em Yanque. Triste.
Alpacas e nativa
Hora do falcão!
Condores livres!
Tem como não achar esse lugar demais?
A Cruz do Condor!










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